Super Poderes

Sim, é verdade. Como todo jovem vagamente nerd, sempre sonhei em ter super poderes. Aliás, na verdade, creio que nem seja preciso ser nerd para querer super poderes. De fato, até o mais inimaginativo ser humano, vira e mexe, sente aquela necessidade de parar um minuto e pensar consigo mesmo: "Ah, se eu pudesse voar/soltar raios/resistir a tiros/derreter meu chefe com o mero poder de minha mente". Acho que a diferença é que, sendo nerd, se tem uma gama muito maior de possibilidades ao se desejar esse tipo de coisa.

Por exemplo, apesar de que seria indiscutivelmente bacana sair voando pelo mundo soltando fogo pelos dedos e controlando os elementos de acordo com minha vontade, meu desejo de super poder é algo muito mais humilde e mundano. Aliás, é um troço aparentemente tão banal que talvez nem pudesse ser arrolado como super poder. Meu sonho de consumo, na verdade, meus amigos, é ter acesso à central unificada de estatísticas do mundo. Você deve estar se perguntando: "Como diabos isso é mais legal do que ter garras e esqueleto de adamantium?". A verdade é que provavelmente não é mais legal.

Por outro lado, há um certo limite do que se pode fazer com os super poderes comumente imaginados pelas pessoas não-nerds. Afinal de contas, uma vez que você derreteu seu chefe e todas as outras pessoas que lhe enchem o saco, seus poderes ficam meio que inúteis. É o velho problema de todo os super-heróis: para que diabos eles vão servir se algum dia conseguirem se livrar de todos os inimigos?

Algo que exemplifica isso muito bem, por mais que o sujeito em questão seja apenas um herói e não um super-herói, é o tratamento que deram à personagem de John Connor n'O Exterminador do Futuro 3. O cara que era para ser o sujeito líder da revolução, por conta de todas as intervenções vindas do futuro, acabou virando um perdido na vida quando, por fim, acabaram por evitar a dominação das máquinas no passado. Isso, por sua vez, fez com que nunca houvesse a necessidade de uma revolução. O sujeito teve seu futuro mudado de líder da raça humana para mendigo, por ter cumprido a missão de sua vida no passado.

Certo, no papel o exemplo ficou um pouco mais confuso do que ele era na minha mente, mas creio que vocês entenderam. Se não entenderam, aqui vai o resumo for dummies: depois de cumprir sua missão, o herói não presta mais para nada.

É por conta disso que minha escolha de super poder é mais legal. Ela sempre vai ser útil, porque as aplicações dela são infindáveis. Pense bem. Tendo acesso a todas as estatísticas do mundo, você poderia descobrir coisas fundamentais, como: quantas pessoas no mundo querem pegá-lo de tapa; quantas vezes sua namorada, ou seu namorado, já pensou em esganá-lo; quais dos seus conhecidos gosta de se vestir de mulher na privacidade de sua casa; ou ainda onde encontrar o melhor preço para cada coisa que você precisa, ou tem vontade de comprar.

É bem verdade que eu, grosso modo, empregaria meu poder 95% das vezes com o intuito mais idiota possível, mas, ei, que culpa eu tenho de ter escolhido o poder mais bacana possível? Não é verdade? Escreva sua opinião e qual o poder que gostaria de ter (olha aí, se eu tivesse meu poder agora mesmo, nem precisaria pedir para você fazer isso, pois já saberia quantas pessoas no mundo teriam inveja do meu poder e concordariam que ele é o máximo).

 Escrito por Leo às 22h44
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Do fundo do baú

A partir de agora e por um período de tempo definido tão-somente pela imprevisibilidade de minha inspiração, vou deixar anotados aqueles pensamentos hilariantes que, volta e meia, acabo tendo a respeito de toda sorte de banalidades e acontecimentos cotidianos. Antes de começar, deixo meu agradecimento a GG, que me convenceu de que eu era engraçado e que deveria continuar escrevendo crônicas. Se você discorda e acha que isso tudo é um pé no saco, fico, então, feliz em informar que todas as críticas e comentários negativos devem ser direcionados ao meu caríssimo amigo supra-citado. Aliás, acho que esse é o tipo de solução que vou passar a adotar para o resto da vida. Não gosta de mim ou do que eu escrevo? Olha, fique à vontade para encaminhar sua crítica para o encarregado das reclamações ali, ó. Sim, é aquele sujeito com mais de dois metros de altura. Mudou de idéia? Até que não era tão chato assim, né? Que bom.

De volta da digressão, vou falar a respeito de algo que vem me intrigando nos últimos dias.

Acho incrível como algumas imagens que criamos com expressões lingüísticas podem adquirir significados tão diversos. Ppor exemplo, quando alguém lhe diz que gosta de você do fundo do coração. Teoricamente, isso deveria lhe informar que você é uma pessoa muito querida. Mas por que diabos o fundo do coração? Para todo o resto das coisas, o fundo não é um troço muito bacana de se estar. Para citar um exemplo extremo, vide o fundo da lata do lixo, ou, um pouco menos ruim, o fundo do poço.

Eu não sei, não, mas posso dizer o que conheço por experiência.

Quando era pequeno, lembro que toda espécie de tranqueira, brinquedo quebrado, embalagem vazia de salgadinho, experimentos mal-sucedidos naqueles kits de alquimia, tudo isso eu guardava no fundo do armário.

Sempre fui bagunceiro. Meu armário era um caos. Minha mãe costumava dizer que meu quarto era uma zona de guerra, ou, quando queria ser mais educada, chamava-o de cafofo. Até hoje não sei o que significa cafofo, para ser sincero. No entanto, como estou com o Houaiss aberto aqui no notebook, vou dar uma olhada e, quem sabe, agraciá-los com o sentido da palavra.

Interlúdio Musical enquanto o autor pesquisa no dicionário.

De volta da terra da sapiência, dou-lhes as duas acepções encontradas.

Cafofo: m. q. latrina; terreno pantanoso ou alagadiço que exala mau cheiro devido aos materiais orgânicos em decomposição nas águas estagnadas.

Puxa vida, latrina ou pântano fétido. É o tipo de carinho que só um familiar poderia dispensar a você. Valeu, viu, mãe?

Mas, enfim, o fundo do armário era aquele local em que eu mais ou menos cuidadosamente depositava todas aquelas tranqueiras de que, por algum motivo sentimental ou por pura preguiça, eu não me desfazia. Geralmente, fazia aquela pilha disforme arquitetada com o único propósito de ocupar o menor espaço possível e que, de preferência, pudesse ser ocultada mais tarde por algum objeto maior, como, por exemplo, uma caixa de algum jogo de tabuleiro.

Pronto! Toda a bagunça estava lá, caoticamente organizada sob a ordem enganosa que o objeto-tampa, no caso a caixa de jogos, inspirava. Obviamente, não era necessário mais que um cutucão para que tudo desabasse sobre você, mas isso não vem ao caso. O fato é que o fundo do armário não era legal, a não ser que fosse um fundo falso. Com efeito, no fundo falso do seu armário que, na maior parte das vezes, fora criado por você mesmo usando um canivete, um martelo, e a massa originada a partir de dois meses de chicletes mascados, era onde você guardava todas aquelas coisas que você não queria que seus pais soubessem que você tinha: estilingues, objetos pontiagudos, pedras que você achou na rua e pareciam valiosas (ainda que todos os adultos dissesem o contrário), conchinhas que você achou na praia, mas que sua mãe não lhe deixou levar por que são cheias de doença, aquele brinquedo que você pegou emprestado do vizinho e nunca devolveu, etc.

Se for assim, eu entendo. Se você me disser que gosta de mim do fundo falso do seu coração, vou me sentir lisonjeado, incluído no rol de todas as coisas ilícitas e deliciosamente divertidas que a gente guardava quando criança, porque é um fato comprovado que o interesse que dipensamos para alguma coisa é proporcional a sua ilegalidade. É verdade. Ouso até dizer que a razão pela qual certas coisas, depois de milhares de anos, ainda são tabu, reside justamente no fato de que, se deixassem de ser tabu, perderiam a graça. Creio que haja um cuidadoso planejamento por parte dos mais velhos, baseado na experiência deles do que é bom e do que não é, para que tudo que tenha sido bom para eles continue ou passe a ser mais ou menos proibido para nós, mais novos. Então, quando a mãe de sua namorada aparecer a cada cinco minutos para atrapalhar seu namoro no sofá, lembre-se de agradecê-la, pois, ainda que inconscientemente, ela está fazendo a coisa ficar muito mais divertida para você. Acredite.

 Escrito por Leo às 21h02
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