Placebo

Acho impressionante como muitos de nós, inclusive este que aqui lhes fala, têm uma dificuldade extrema em aceitar a superioridade de outrem em alguma atividade ou característica inerente. Na maior parte das vezes, nós relutamos, até o ponto de desafiar todas os fundamentos lógicos que nos foram ensinados ao longo dos anos, tão-somente para justificar, mal e porcamente, nossas qualidades inferiores. Quem nunca pensou que a fulaninha que sentava do seu lado na escola ia melhor que você só porque você não se esforçava o bastante. Não importa se a menina tivesse comprovadamente um intelecto de dar inveja a Einstein, ainda assim você inventaria alguma desculpa, ou então, quando a razão e a lógica já tivessem sido completamente aviltadas pelos seus argumentos, você passaria para a segunda fase do negócio, que foi o que eu me peguei fazendo hoje na academia.

O fato é que todos nós, mais cedo ou mais tarde, nos deparamos com alguém que é tão melhor do que nós em alguma coisa, que não há nada que se possa dizer para desculpar-se. Se o sujeito lá conseguia levantar com um braço o peso que eu, grunindo e quase mudando de cor, preciso dos dois braços para erguer, só resta uma coisa a fazer: concentrar-se no fato de que ele tinha a desenvoltura social de uma guacamole.

Essa foi uma situação simples de se resolver, pois havia um aspecto ridículo do sujeito em que meu cérebro se focalizou, para que todos meus sentidos só percebessem aquilo.

Outras vezes, a coisa fica um pouco mais complicada, quando não há algo tão óbvio em que se concentrar, ou quando a outra pessoa, durante um convívio mais intenso, passa a se mostrar melhor do que você em, basicamente, tudo. Nesse ponto, você vai começar a desafiá-la para tudo quando é coisa, desde pebolim até kung-fu de dedo, numa busca desesperada por algo em que você consiga vencê-la e, quando isso ocorrer, é claro que você vai ser o pior ganhador do mundo. Não importa se você ganhou dela em ter o maior número de espinhas no traseiro, ainda assim essa conquista será o bastante para você se ufanar da forma mais cretina e lamentável que se possa imaginar, o que geralmente inclui dancinhas e um trabalho contínuo de apontar os dedos, rindo histericamente, como ri um gordo nerd, num fórum de algum jogo totalmente datado e esquecido, por conta de alguém ter perguntado como se passa da primeira fase.

 Escrito por Leo às 21h49
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Ação e Reação

Todos, até mesmo os mais estóicos entre nós, esboçamos algum tipo de reação quando súbito prevemos uma circustância ruim, como, por exemplo, quando você está guiando despreocupado pelas ruas de São Paulo, talvez até cantarolando o jingle da sua propaganda de cerveja favorita, e do nada o sujeito à sua frente resolve fazer um teste completo dos freios de seu carro.

É incrível a quantidade de coisas que acontecem no brevíssimo intervalo de tempo que separa o momento em que você percebe a desgraça futura e a hora da conclusão de tal desgraça. Você se estica todo no assento, num reflexo natural que nosso corpo parece fazer a fim de alcançar o chão com os pés e parar o carro à maneira dos Flintstones. Ao contrário de tudo que lhe ensinaram e que você ensinaria a outrem, você esmaga o freio até o talo, perdendo o controle do veículo, travando as rodas, e alertando todos à sua volta de que em menos de um segundo eles poderão ovacionar sua má sorte em coro. Aliás, um dos momentos em que os brasileiros mais se unem é para examinar a cena de um acidente. Outro dia, por exemplo, vi um caminhão de areia tombado a não mais de 5 minutos. Todavia, já havia meia dúzia de crianças brincando na areia derramada em uma pracinha.

Digo pracinha por que o negócio não passava de uma faixa de terra no formato de um triângulo e coberta por um gramado mal-cuidado. No entanto, parece que nós, paulistas, não temos uma medida mínima para chamar algo de praça. Se há um círculo de meio metro de diâmetro em meio a um cruzamento, pode ter certeza que é uma praça e que tem o nome da mãe de algum político.

De volta da digressão, eu lhes digo que há muitas outras situações como a do acidente de carro, nas quais nós deixamos de ser nós mesmos por conta de uma reação exagerada. Imagine, por exemplo, como se contorceria seu rosto ao perceber um míssil Tomahawk vindo em sua direção. Ou, pior ainda, se você, ao cruzar o corredor, se deparasse com outro ser humano, com uma outra pessoa, inteira, diante de você. Isso, sim, seria absurdo e digno da maior contorção facial já testemunhada por um vivente, não acham? Não?

Pois é, mas essa deveria ser crença da senhora com quem eu quase trombei hoje. Não foi nem um quase tão preocupante assim, foi um daqueles quases que você parou a meio metro e que se dissesse para um amigo que ele quase esbarrou em você ele lhe mandaria catar coquinho, porque ainda tinha um belo espaço ali entre vocês dois. Não obstante, isso foi motivo o bastante para essa senhora que lhes mencionei travar os músculos de seu rosto e, abrindo um pouco a boca, me mostrar os dentes inferiores tal qual um poodle enraivecido.

Alguém já percebeu isso? Todos os cachorros e demais animais portadores de dentes consideráveis, quando nervosos, contraem os músculos de seus focinhos de modo a mostrar os dentes superiores. O poodle, no entanto, esse bicho mutante e peçonhento, parece ser o único a mostrar os dentes de baixo.

Tenho até receio de pensar na minha própria reação perante o espetáculo dentário da mulher, mas imagino que não tenha sido menos ruim do que uma de total estranhamento e desgosto com o gênero humano.

Talvez fosse um cacoete dela. Nesse caso, teria de reformular meu pensamento de que um sujeito que eu conheci há uns anos atrás tivesse todos os cacoetes do mundo. Sério mesmo, o cara era praticamente uma cacoetopédia. Para falar com você ele precisava piscar freneticamente, se coçar, tamburilar com os dedos em algo, se mexer como se tivesse um ouriço na cueca, e, o pior e mais desagradável de tudo, fazer um barulho como se houvesse alguém constantemente lhe apertando os bagos. Apesar de tudo isso, creio que ele nunca tenha mostrado os dentes inferiores para mim. Que decepção.

 Escrito por Leo às 14h24
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Momentos que mudam nossas vidas

Às vezes, as coisas aparentemente mais banais conseguem afetar nosso íntimo e nos derrubar de uma forma que jamais poderíamos prever. O pior de tudo, sem dúvida, é que isso geralmente ocorre nas horas menos oportunas, ou menos esperadas. Por exemplo, quando você está pronto e seguro para fazer uma apresentação, dirigindo-se ao palco, ou palanque, ou qualquer outro lugar onde as pessoas pagam mico, e, na caminhada até lá, enquanto é observado pela sua futura audiência, alguém, talvez até bem-intencionado, de passagem lhe diz "boa sorte".

Em seguida, conforme ele lhe dá aquele tapinha nas costas que acompanha pelo menos 50% dos procedimentos de socialização, o véu se ergue e você passa a enxergar a coisa por um outro ângulo. Talvez a situação não seja tão simples quanto você imaginava, afinal de contas, alguém até teve de desejar-lhe boa sorte, com direito até a tapinha nas costas, como se faz a alguém momentos antes de ser despedido, quando a empresa inteira, menos o sujeito, sabe que está prestes a ser defenestrado.

Pronto. Um mero "boa sorte" foi o bastante para acabar com sua auto-estima e você agora já está gaguejando, suando por lugares em que nem imaginava ser possível suar. O microfone quase não pára mais na sua mão e há pelo menos uns cinco desalmados rindo da sua cara no fundo da sala. Todos os olhares na sua direção parecem reprová-lo e é só uma questão de tempo até você entrar em pânico e fugir pela saída de incêndio, para nunca mais voltar.

Outras vezes, o resultado é menos catastrófico, mas igualmente impactante em sua vida. Hoje, por exemplo, vivenciei uma dessas experiências que nos marcam a alma para o resto de nossos dias, deixando feridas que nunca se cicatrizam por completo. Hoje, meus caros, carimbaram NULO não apenas uma vez, mas duas, sobre o cupom que acompanhava minha pizza.

Foi algo que me pegou totalmente desprevinido, como um atirador de elite de butuca dentro da embalagem de papel que protegia minha refeição da intempérie e da visão dos lobos e chacais que habitam as ruas e poderiam atacar o cavaleiro e sua montaria enquanto ele percorria as terríveis duas quadras que separam meu apartamento da pizzaria.

Que tipo de pessoa lhe envia uma embalagem com um cupom carimbado NULO duas vezes? Se eu houvesse rasgado o papel e encontrado uma embalagem sem cupom, entenderia, uma vez que eu havia adquirido a iguaria por meio da barganha de doze cupons juntados ao longo de algumas semanas. Tudo bem, eles não querem me dar um cupom a mais num troço pelo qual eu não paguei, mas é muita maldade anular um cupom. Eu já tinha até feito os cálculos de quantas pizzas a mais precisaria comprar, levando em conta a aquisição daquele cupom anulado, até conseguir mais 12 cupons! Sacrilégio!

Aqui vai, então, meu apelo: se você é dono de uma pizzaria em que há um sistema de cupons, monte dois tipos de embalagem, seu pão-duro desalmado: uma com cupom, outra sem.

Como protesto, acho que vou juntar cupons anulados e usá-los da forma mais revoltante e irônica que conseguir pensar, como, por exemplo, oferecê-los de gorjeta à pizzaria sempre que for comprar lá. Se tiver uma idéia melhor, ou mais ultrajante, não hesite em compartilhá-la, pois a questão é das mais sérias e fundamental para a manutenção da democracia e da liberdade nesse país.

 Escrito por Leo às 00h49
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A psicanálise sob a ótica de um avestruz

Na Universidade de São Paulo, a gente acaba esbarrando em toda sorte de louco possível e imaginável. Quem é de fora deve achar que isso não passa de um exagero, que lá é um lugar como qualquer outro e, assim sendo, possui uma variedade de tipos humanos contemplada pelo próprio aspecto multifacetado de nossa psique. Se você é partidário dessa opinião, peço que me acompanhe enquanto lhes apresento um tour pelo zoológico universitário, para que, talvez, eu possa dissuadi-lo.

Antes de mais nada, deve-se ter em mente que a USP é um lugar tão propício para o estudo dos mais absurdos exemplares de nossa espécie pelo fato de que lá se encontram e misturam gentes de todo o Brasil, além de uma meia dúzia de gringos perdidos e africanos que caminham alegres pelo campus enquanto conversam num Francês hilariamente incompreensível.

Aliás, toda vez que encontro um gringo fazendo intercâmbio lá me dá vontade de falar: "Velho, por acaso seus pais lhe ensinaram as coisas do avesso só para tirar um sarro de você mais tarde?". Francamente, não entendo o que passa na cabeça de um cidadão do primeiro mundo que resolve vir morar aqui, mas deve ter algo a ver com uma necessidade de regredir àquele estágio primeiro em que o bebê tem vontade de brincar com suas próprias fezes.

De qualquer forma, voltemos aos tipos humanos.

Talvez o arquétipo mais comum nas ciências humanas, e também, por sinal, um dos que mais me molesta os olhos e os demais sentidos, é o do militante comunista destituído de qualquer faculdade cognitiva que lhe permita tomar parte em uma discussão que não envolva o constante e enfurecido ataque à menor tentativa de questionamento de seus ideais. Não me entendam mal: não tenho problemas com um sujeito só por ele ser comunista; pelo contrário, acho que há aspectos interessantes a serem depreendidos disso. O que me irrita é quando você é alvejado por todos os sinônimos existentes para "burguês alienado" quando se recusa a fazer qualquer coisa que eles querem que você faça, ou pior, quando você tenta dar uma opinião que varie um milímetro do que ele está acostumado a ouvir.

Outro tipo de que não se pode esquecer é o das patricinhas e mauricinhos que nunca entendem nada nas aulas e que parecem freqüentar a faculdade simplesmente para socializar um pouco. De modo geral, incomodam menos que o militante mentecapto, mas, quando entram em debate com esse último, fazem com que meu cérebro queira entrar em um curto-circuito auto-induzido.

Há também uma variante, a quem às vezes o povo chama de "badaba", que se trata basicamente de um mauricinho, ou patricinha, que não toma banho e anda de havaianas para parecer pobre e socializar com os militantes comunistas e, dessa forma, se sentir mais engajado politicamente, mas que, no final do dia, volta para casa de carro importado.

Outro grupo altamente desagradável é o dos "baba-ovos", aqueles sujeitos para quem ser "CDF" não é o bastante. Não, é preciso também fazer de tudo para puxar o saco do professor e para parecer mais inteligente do que se realmente é, fazendo perguntas a respeito de textos que deveriam ser lidos para daqui três aulas. Como se não fosse ruim o bastante, essa também é a categoria em que se encaixa a maioria dos senhores e senhoras que resolvem voltar à faculdade depois de velhos. Quando isso ocorre, o efeito é calamitoso, por que um baba-ovo velho é também aquele sujeito que sempre tem alguma pergunta que, na verdade, não poderia ser encaixada corretamente na categoria de pergunta por qualquer um com meio neurônio.

Deixe-me esclarecer. Quando você passa dez minutos da aula enumerando todos os livros que você leu a respeito do assunto em questão e, ao final, diz "É por aí, professor?", isso se encaixa na categoria de pergunta tanto quanto um cilindro se encaixa no buraco do cubo naqueles brinquedos para bebê, sabe? O cilindro passa por cubo, mas no fim ele não se sustenta e cai por terra, assim como certa vez caiu uma baba-ovo velha após a quarta pergunta estúpida e desnecessariamente longa, ao final da qual a classe, numa epifania coletiva, ou surto de consciência única, gritou em uníssono: "Cala a boca, Susana!". Foi um momento mágico, meus amigos, tão mágico quanto as bolachas Magic Toast que eu não consigo dizer se são doces ou salgadas, ou se são uma ripa de madeira plasmada em comida pelo milagre da tecnologia moderna.

Mas eu divago.

Não posso terminar esse texto sem mencionar o cara da atlética; aquele maluco cuja animação só pode advir do uso de esteróides ou de algum cromossomo mutante. É fácil identificá-los, uma vez que estão sempre com o uniforme porcamente desenhado para simbolizar o espírito esportivo da unidade. Jamais vão às aulas e parecem ter prestado vestibular tão-somente para fazer uso do Centro Poliesportivo. Fora isso, serão um dos tipos que menos lhe darão trabalho.

De resto, creio que todas as outras sub-espécies são derivadas de um cruzamento ou mutação por meio de Ooze entre um ou mais dos grupos mencionados. No entanto, dou um doce para quem puder me dizer qual a procedência de um sujeito que encontrei outro dia. Não o fitei tempo o bastante para fornecer-lhes grandes detalhes, mas posso afirmar com certeza que tinha um olhar perdido e uma expressão vagamente homicida. Topei com ele na forma mais inesperada possível.

Estava voltando do treino com Evandro numa noite especialmente chuvosa, ocasião na qual as pessoas, assim como eu, dão preferência ainda maior para esperar pelo circular, que, aliás, dizem que é que nem OVNI: alguns já viram, outros dizem que já até entraram nele. Pois que eu estava para descer do circular lotado e, quando viro para me dirigir à saída traseira localizada pouco atrás do ponto em que eu me encontrava, vejo que o caminho estava bloqueado por um cidadão sentado numa banqueta de madeira. Sim, uma banqueta de madeira no meio do corredor do ônibus, na qual um Zé-Roela estava sentado com olhar perdido e expressão vagamente homicida, como já mencionado.

Fiquei depois me perguntando se o cara fazia isso sempre, se levava o raio da banqueta por aí, para garantir um assento na fila do banco, ou se simplesmente o carregava para ter sempre algo de que falar com os que estão à sua volta, que nem aqueles caras que vão passear com o cachorro ou com um bebê, para chamar a atenção da mulherada. Vai ver também que o cara é de alguma dessas religiões bizarras que acreditam que, depois que você morre, você volta na forma de alguma coisa aleatória, e que o banquinho é na verdade o tio dele.

Enfim, um doce para quem resolver o mistério!

 Escrito por Leo às 02h57
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