Duelo de Titãs

Já mencionei isso antes, mas volto ao assunto: se tem uma coisa que eu acho divertida, é ver um casal brigando. É verdade. Talvez eu seja curioso demais, ou enxerido; você decida. Não me importo, realmente. O fato é que poucas coisas são tão recreativas quanto acompanhar, passo a passo, dois adultos se despindo de toda sua integridade e revelando a quem quiser ouvir as mais sórdidas ninharias de sua intimidade.

Na verdade, não é nem preciso que seja um casal, apenas que sejam duas pessoas, pois mais que isso já vira muvuca e muvuca não é comigo. Sou apenas um apreciador de um engajamento erístico cujo objetivo único é produzir o maior e mais eficaz insulto a seu adversário. De fato, vale tudo numa briga dessas, desde evocar momentos comprometedores de que o outro tenha tido parte, tomando sempre uma licença poética para aumentar um pouco em prol da apreciação da platéia, até imitações burlescas, ou arremesso de tortas.

O contato físico, logicamente, é algo a que não poucas vezes os participantes desse esporte acabam por recorrer. Desde já, digo que ele é válido, desde que não cause um fim prematuro ao conflito. De preferência, ele também deve ser produto de um exercício intelectual engenhoso, de modo a transformar até o mais banal dos tapas em algo inusitado e irreverente.

Uma coisa que se deve evitar veementemente é a réplica mentecapta. Nada é pior do que quando um dos combatentes desfere um comentário matador, algo que envolva a quebra da moral, a falha de caráter, e a mãe do adversário, simplesmente para ser seguido por: "É você.".

Não façam isso, meus amigos. Nunca. Jamais dêem esse tipo de resposta. É como as músicas bregas em fim de festa, anunciando que todo o repertório decente acabou e que é melhor a galera ir para casa. Dêem valor a sua platéia e mantenham um mínimo de bom-senso. O silêncio é melhor do que uma coisa dessas, e pode até ser empregado para aniquilar o adversário, se usado de forma irônica e ignominiosa. Sim, ignominioso. Isso, numa disputa verbal, é o mesmo que um uppercut bem aplicado.

Enfim, o problema de tudo isso é que tenho um vizinho que é um verdadeiro animal. O sujeito deve ter sido criado por rinocerontes enraivecidos, ou ter sofrido exposição a Ooze, aquela substância verde fosforescente que criou as Tartarugas Ninja.

Nunca vi alguém com tanta disposição para brigar. Às vezes, ele e a mulher passam a semana inteira gritando um com o outro, quebrando coisas, se esbofeteando, sem fazer pausas maiores do que de algumas horas, em que eles provavelmente devem desmaiar de cansaço, pois à noite, de certo, eles não dormem.

Vamos ao problema agora: por mais altos e impossíveis de ser ignorados que sejam seus brados, eu não consigo entender direito o que eles estão falando. É uma lástima. Nem com a janela aberta espiando o quarto deles eu consigo compreender exatamente a natureza da briga. Apenas de vez em quando algo mais aviltante é proferido em tom mais alto, como "quebro mesmo, eu que comprei", ou "você roubou meu dinheiro de novo para ir beber".

É uma falta de respeito com o próximo. Se você vai brigar e me impedir de dormir à noite, que pelo menos o faça de uma forma que eu possa acompanhar da minha janela, munido de pipoca e coca-cola.

 Escrito por Leo às 22h52
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Dormindo com o inimigo

Acho que a teoria mais furada do mundo é a da evolução. No entanto, minha descrença a esse respeito não advem de eu não acreditar que tenhamos vindo dos macacos. Pelo contrário, acho que o ser humano médio age de forma muito parecida com um símio. Isso nem sempre é fácil de se observar quando se isola um espécimen humano. Todavia, a semelhança se evidencia mormente quando um homem se junta a outros homens numa sexta-feira à noite para se divertir.

Com efeito, uma balada é o maior exemplo de um zoológico humano. Pessoas de todos os tipos pulando e movendo os membros descompassadamente, esbarrando umas nas outras e se comunicando a partir de monossílabos e gestos embrigados. Por conta disso, acho totalmente plausível pensar que o homem veio do macaco.

No entanto, meus amigos, a teoria da evolução se desestabiliza e cai por terra ao tentar ser aplicada ao pernilongo. Sim, esse mosquito comum com que todos nós somos obrigados a lutar nos dias de calor e que faz ricas as fábricas de insetidas.

Ora, se realmente as criaturas, ao longo dos milênios, evoluem naturalmente de modo a adaptarem-se da melhor forma possível a seu ambiente e à obtenção de seu alimento, porque diabos o pernilongo mantém aquele zumbido horríssono que me perturba o sono e me leva próximo à loucura? É tão perspicaz quanto um bandido tocar a campainha antes de entrar furtivamente e roubar sua casa.

Não faz sentido nenhum, a não ser que você passe a crer que o pernilongo tenha a pior forma de sadismo jamais vista no reino animal.

Levando em conta o inconsciente coletivo e todas as formas de terror que já foram criadas usando insetos, até que é plausível acreditar na vileza incontida dos pernilongos, ainda que não tenham figurado como vilões em nenhum filme de que tenho notícia, ao contrário das formigas, ou das baratas.

Só me resta crer que Darwin tenha vivido a vida toda em lugares frios demais para que lá houvesse mosquitos, ou que ele tivesse um sangue impróprio para servir de bebida de pernilongo.

 Escrito por Leo às 19h45
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O gênio humano trabalhando em prol da inutilidade

Algumas invenções, por mais bem-intencionadas que tenham sido em seu desenvolvimento, acabam por atrapalhar mais do que ajudar. Acho que não há exemplo mais claro disso do que aqueles instrumentos de cozinha produzidos com o único objetivo de realizar uma tarefa que você, se parar para pensar, nem se importa tanto de fazer. No final das contas, por mais que na propaganda se diga que ele consegue quebrar um ovo perfeitamente em dois, você não só vai levar o triplo do tempo, como ainda vai estragar metade dos ingredientes enquanto tenta fazer o troço funcionar. Aliás, por mais banal que seja a tarefa, já perceberam como parece ser necessária a mais complexa engenhoca jamais produzida para dar conta do serviço? Imagino que, para conseguir um resultado um pouco mais difícil, como remover os caroços de uma melancia, você ia precisar ter em sua cozinha algo semelhante a um escafandro.

Todavia, uma das coisas que mais me atrapalha a vida é aquela janelinha que colocam nas portas das salas de aula. Concordo que deve ter lá sua importância espiar dentro da sala. Talvez tenha até uma função de alívio cômico poder andar pelos corredores e rir da cara de desânimo e tédio dos alunos. Só que, como eu não perco meu tempo passeando pela faculdade e adquirindo câncer como fumante passivo, acabo vivenciando apenas a terrível situação de se ver preso dentro de um lugar, semelhante a um animal enjaulado, cuja única saída para a liberdade evidencia algum rosto curioso e gozador me espiando.

Mesmo quando a aula é boa e não há aquele desejo incontido de sair pulando por cima das carteiras, o movimento exterior inevitavelmente acaba se tornando mais cativante do que o monólogo do professor.

As próprias janelas, também, deveriam ser planejadas para oferecer somente os mais brandos cenários possíveis. Afinal de contas, se eu tiver de escolher entre ouvir a respeito da ascensão do Romance ou a briga de um casal de namorados, a recuperação no final do semestre será inevitável.

 Escrito por Leo às 14h57
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No meio do caminho, havia um gremlin

Só quem é míope consegue apreender o verdadeiro potencial místico e preternatural das coisas do mundo. Ao menos duas vezes por semana, eu me dou o luxo de sair do conforto de meu lar desprovido das lentes que, pelo milagre da tecnologia, fazem com que eu veja o que há à minha volta da mesma forma pela qual a maioria das pessoas, teoricamente, as vê. Apesar de breves, são mágicos esses momentos, meus amigos. É assustadoramente comum ver ratos gigantes, ou predadores famintos onde não-míopes veriam folhas secas e galhos.

Esse é um fato que se acentua ainda mais no momento em que um míope acorda de sopetão em sua cama, trazido de volta do mundo dos sonhos pelo telefone que toca, ou pelo vizinho gritando com seu cachorro. Quando isso acontece, não raras são as vezes em que é possível se divisar Napoleão liderando um exército de sombras a seu encontro, sob a forma de um inocente mancebo carregado de vestes semi-limpas e dos contornos escuros do quarto, criados pela ilusão da cortina filtrando a luz da manhã.

Claro que, sem suas lentes corretoras, você acaba deixando de atentar a muitas maravilhas que, aos demais, são de fácil acesso. Por conta disso, ouso dizer que, se os míopes usassem menos seus óculos, haveria uma diminuição no número de adultérios e um aumento da produtividade da nação.

De qualquer forma, além dos sustos, há um aspecto da psique humana que é altamente realçado quando se larga um míope em meio a uma multidão de pessoas. Cada um dos rostos anuviados que vêm e vão traz consigo a esperança de ser alguém conhecido. É aquela velha tendência que todos nós temos de enxergar o novo a partir do que já nos é comum.

O mais engraçado de tudo é que, aparentemente, todo míope tem a mesma crença secreta de que, se apertar bastante os olhos, conseguirá, magicamente, se curar da miopia e enxergar perfeitamente, como que ativando um super poder. Disso advém o triste fato de que, ao tentar estabelecer um reconhecimento das características faciais dos transeuntes, o míope acaba adquirindo uma expressão semelhante à de The Rock quando tenta parecer malvado.

Quem está à sua volta nesse momento acha que você está prestes a sacar uma Uzi e matar meia dúzia. Por conta disso, geralmente todo mundo evita olhar para um míope nesse estado. Creio que eles olhem para você e pensem "Caramba, não só o sujeito ignorou meu sutil sorriso de cumprimento, como ainda me fez careta!". Aí, quando finalmente você identifica que aquele cara que passou é um conhecido, ele já foi embora, chateado com você.

Tendo em mente todos esses problemas, proponho a seguinte solução a meus irmãos míopes de todo o mundo: vestir camisetas com os dizeres "Sou míope e não uma Scania. Mantenha contato direto.".

 Escrito por Leo às 18h06
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A psicanálise sob a ótica de um avestruz, parte II

Não sei se estou sozinho nisso, mas sofro de uma estranha necessidade de checar as coisas mais óbvias e, geralmente, mais desagradáveis possíveis. Se você é meu amigo, por favor nunca me peça para segurar dois cabos elétricos, pois não há dúvida alguma de que eu terei de, no mínimo, testar o quanto dói o choque deles. Na melhor das hipóteses, vou unir os dois e causar um blecaute no bairro todo, ou experimentar se é possível estourar pipoca com eles.

Quando pequeno, as pessoas tinham de tirar esqueiros e fósforos de mim, porque eu viva botando fogo em tudo quanto é coisa, para ver se derretia ou era consumida pelas chamas, e geralmente me queimava no processo. Aliás, eu me queimava tanto que minha vó carregava a pomada para queimaduras no avental. Só que, como nós passávamos quase um mês na casa dela em Atibaia durante as férias, depois de uma semana ou duas a pomada era apenas uma saudosa lembrança de tempos passados. Por conta disso, tornei-me uma espécie de cobaia para toda sorte de tratamentos empíricos para a dor e os demais sintomas da queimadura. Juro que me passaram de tudo, desde o comum tratamento com pasta de dente, até aplicar uma fatia de tomate cru sobre o local afligido.

Realmente, não é brincadeira. Creio que seja algo até patológico e não me ofendo se me tratarem como enfermo.

Meus familiares conhecem a fundo esse meu problema. Durante seus mais tenros anos, minha irmã se dava de corpo e alma às maravilhas da pintura. Seus quadros até que não eram de todo mal, à exceção das constantes marcas de dedo sobre a tela, resultantes de minha obsessão em saber se a pintura havia secado. Aliás, geralmente havia mais do que uma marca de dedo, já que os quadros levavam no mínimo uma semana para secar, o que me dava a oportunidade de testar a secura do negócio pelo menos três ou quatro vezes.

Outro alvo constante de meus dedos eram as gelatinas que minha mãe fazia. Pelo menos três de cada dez forminhas ostentavam minhas digitais, mais ou menos como aqueles atestados de qualidade ISO 9000, exceto que esse selo só significava que a gelatina havia sido contaminada por germes e bactérias.

Uma das coisas mais desagradáveis para nós que padecemos desse mal é quando, por um acaso da sorte ou descuido acidental, algum cheiro alheio ao nosso fica estagnado em nossas mãos. Não importa o quão atestadamente desagrável seja o cheiro, como o chorume que escorre dos sacos de lixo quando você os leva para fora. Ainda assim, a cada minuto ou dois, alguma faculdade sinistra de nossas mentes faz com que se torne uma questão de vida ou morte testar para ver se o cheiro ainda está lá, ou se era tão ruim quando achávamos que era.

Já tentei até amarrar um cordão no meu dedo, mas aí tive de tirá-lo para testar quanto tempo eu ficava sem esquecer para que eu o tinha posto lá.

Acho que alguém certa vez até diagnosticou o problema quando eu lhe disse que meu medo de altura e de trens resultava de uma curiosidade mórbida de saber o que aconteceria se eu pulasse ali. Juro que não tenho vontade de me matar, só fico curioso para saber qual a sensação de me espatifar no pavimento depois de passar alguns segundos em queda livre. Acho que nunca o ditado de que "a curiosidade matou o gato" se aplicou tão bem quanto aqui, exceto que eu sou uma pessoa e não um gato, e que ainda não morri, mas vocês entenderam a idéia.

 Escrito por Leo às 22h43
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A pena e a espada

As pessoas riem quando lhes digo que, durante algum tempo da minha adolescência, eu considerei seriamente entrar no exército e seguir a carreira militar. Não sei exatamente de onde vem todo esse estranhamento. Para mim, sempre me pareceu algo possível e ao meu alcance. Claro que, naquela época, eu não devia levar em conta minha total incapacidade de me organizar, ou de dormir e acordar em horários fixos, para não mencionar minha preguiça ou minha falheza extrema em tarefas físicas extenuantes. Mas isso é de menos, não é? Acho que o mais importante é ter um objetivo claro em mente, acreditando-se capaz de enfrentar quaisquer obstáculos que se ponham entre você e seu sonho.

Mentira, mas, de qualquer modo, hoje em dia, vejo que minha escolha por seguir a carreira acadêmica tem muitas semelhanças com aquela de meus planos de moleque. Em ambas, você come mal à beça nos refeitórios e é visto como a escória do universo pelos seus superiores na hierarquia rígida que as rege. Você ganha uma miséria, mas todo mundo tem um certo medo de você, seja ele de natureza física ou intelectual. Nos dois mundos, há mais baba-ovos do que gente, e você precisa fazer tipo de que é amigo de todo mundo, ou acaba sendo excluído por completo.

Há, obviamente, algumas diferenças gritantes como o fato de que se você é aloprado por seu superior na carreira acadêmica, só pode reclamar para o bispo. Mas talvez nisso eu esteja errado e seja a mesma tristeza no exército, embora lembre de algumas histórias de quem está lá dentro que me garantem que há punição, sim, para o abuso de poder na instituição militar.

Creio que a coisa mais complicada que se enfrenta no mundo acadêmico seja a falta de uma linha de conduta única a ser tomada por todos. Ao contrário do exército, você nunca sabe como deve se reportar a seu professor. Não dá para chegar na classe com uma rotina já em mente, batendo continência e esperando que tudo dê certo. Na universidade, há muito mais espaço para cada um dar vazão aos delírios de seu ego e exigir as coisas mais absurdas, como um professor que eu tinha que trancava a sala depois que chegava e não deixava ninguém mais entrar. Para piorar, o sujeito ainda fumava naquele antro minúsculo e super-populado.

O mais engraçado de tudo é quando, no começo do semestre, o professor simplesmente se recusa a dar aula. Imaginem isso no exército. Chegam lá os recrutas e o sargento diz que por conta de um congresso que ele vai participar no mês seguinte, ele acha melhor não treinar ninguém e que todo mundo pode ir na biblioteca do exército pegar um livro de fitness e ir preparando um trabalho de quinhentas laudas a respeito.

Por outro lado, não tenho direito nenhum de reclamar, uma vez que no exército eu não poderia deixar de ir aos treinos, ou sair na metade deles como às vezes faço com as aulas da faculdade.

 Escrito por Leo às 14h40
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