"Vai, Carlos! ser gauche na vida"

Os gregos acreditavam que os nomes tinham em si o poder não só de evocar aquilo que nomeavam, mas também de defini-lo. Sou um exemplo vivo de que isso é a mais pura verdade, pois, quando eu era pequeno, aconteceu-me algo que, no mínimo, causou uma fratura irreparável em minha psique, a ponto de quase induzir-me à esquizofrenia.

Foi na primeira série. Era Fevereiro, ainda num dos primeiros dias de aula. Praticamente ninguém se conhecia, de modo que, a partir de uma daquelas geniais brincadeiras de escola, a professora nos confeccionou pequenas plaquetas de papel, mais ou menos como aquelas que se usam em empresas grandes, com nosso nome nelas. Até hoje, ainda me lembro de como eu fui contente buscar a minha etiqueta e, ao voltar com ela, de como o moleque a meu lado começou a choramingar que eu havia roubado o nome dele.

Em princípio, esbarrei num estado de estranhamento total. Como assim roubar o nome dele? Dizia lá: "Leonardo", e esse era meu nome, obviamente. A professora interferiu, dizendo-me algo que, por pelo menos dez anos, iria definir minha vida na escola: "Você não pode ser Leonardo. Já tem um. A gente vai chamar você de Carlos. Toma".

Isso foi praticamente tão aleatório quanto me chamar de Joaquim, ou José, uma vez que, até aquele estágio da minha vida, todo mundo me chamara de Leonardo, ou de Leo. Meu primeiro nome até então era apenas como um apêndice indesejado, cuja única função era a de garantir que no futuro eu não teria problemas com homônimos, ou pelo menos essa era a desculpa de meus pais depois que a explicação anterior de que era uma homenagem a Drummond e ao tio da minha mãe começou a parecer furada demais para mim.

Minha reação seguinte foi de revolta. "Pô, como assim? Eu não gosto que me chamem de Carlos. Eu quero a droga da plaqueta com Leonardo escrito nela". Mas não tinha mais jeito. Meu futuro havia sido decidido e agora eu era Carlos. Sentei-me em silêncio e totalmente incerto de quem eu era e de como deveria agir.

Em casa, eu era Leonardo. Na escola, eu era Carlos. Isso parece até uma história de agente secreto, ou de travesti, mas o fato é que isso tudo realmente fez com que eu criasse duas identidades diferentes e conflitantes. Quando, por algum acaso horrível, duas pessoas conversavam comigo, cada uma se dirigindo a mim por nomes diferentes, praticamente causava um tilt no meu cérebro.

Hoje em dia, a todo lugar que eu vou, faço questão de dizer que quero ser chamado de Leonardo, ou pelo menos todo lugar em que haja uma chance mais ou menos remota de eu freqüentar mais de uma vez. Mas tem sempre um ou outro amigo antigo da escola que acaba estragando todo o trabalho desses anos reformatórios ao dizer: "Vocês não sabiam que ele chama Carlos? Chama de Carlos que ele responde, você vai ver. É legal, principalmente porque ele não gosta".

Nada no mundo, à exceção de parentes, consegue ser tão eficaz quanto seus melhores amigos quando o assunto é ratificar que você não vale nada como ser humano.

 Escrito por Leo às 23h00
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Além da linha do detector de metais

A primeira vez foi totalmente ao acaso. Era tarde da noite e eu precisava de algum daqueles produtos indispensáveis ao nosso dia-a-dia, como salame, ou coca-cola. Juntei minhas forças e saí de casa.

Mal havia entrado no mercado quando escutei o sonoro estardalhaço da porta de metal se desenrolando, para privar o mundo de todas iguarias encerradas em seu interior, junto às quais, agora, por um acaso do destino, eu me encontrava. Foi mais um daqueles momentos mágicos em que, de repente, você passa a perceber quão maravilhosa a vida realmente é. Ao menos para mim, claro, porque os funcionários do estabelecimento, julgando pelo fato de que não havia mais ninguém no mercado comigo, deveriam estar me odiando terrivelmente, mas isso não foi o bastante para diminuir a diversão que eu estava tendo com o mercado inteiro só para mim. Eu me senti naqueles programas de TV muito toscos em que o sujeito precisa correr com o carrinho para encontrar um certo produto.

Depois daquele dia, por conta da ação de alguma parte desconhecida de nossas mentes, eu me encontrei várias vezes indo ao mercado pouco antes de ele fechar. Na verdade, não só ao mercado, mas também à locadora, à farmácia, e à banca de jogo do bicho, o que resultou em uma situação estranha, uma vez que eu não tinha a menor intenção de jogar. No entanto, a perspectiva de conseguir entrar em algum lugar no último momento possível, meio que à la Indiana Jones, falava mais alto do que coisas secundárias como a necessidade ou a lógica.

Para minha surpresa, foi num domingo que eu vivenciei a experiência cinematográfica por que meu ser tanto ansiava. O mercadinho aqui perto de casa, como todo bom estabelecimento pequeno, abre aos domingos somente até a hora do almoço, fato de que eu, obviamente, nunca consigo me recordar. Só me dei conta de que estava preso naquele ambiente pequeno e mal-iluminado quando o filho do dono começou a juntar num cantinho as poucas pessoas que precisavam sair.

Não sei se foi por conta da pouca iluminação, ou do jeito peculiar pelo qual o rapaz estava lidando com as pessoas, mas eu me senti como se estivesse em uma missão de guerra, prestes a partir em disparada de dentro de um bunker junto com o restante do meu time de assalto. Tanto que, quando ele finalmente ergueu a porta só o tanto suficiente para nós passarmos e pediu para termos pressa, eu tive de me segurar para não sair correndo pelas ruas alvejando os passantes com latas de cerveja e pacotes de amendoim.

Desde então, tenho evitado comprar quaisquer derivados de frango, o que na verdade não tem muito que ver com o resto da história, mas é meio que forçoso demonstrar uma mudança de caráter ao final de uma expericência como essas, para que vocês acreditem que ela foi deveras marcante. Portanto, se ninguém se importar de sacrificar a lógica em prol de um sentimento de realização semelho àquele que se tem após duas horas num rodízio, fica por isso mesmo.

 Escrito por Leo às 21h35
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Profissões

Há certos empregos em que se requerem conhecimentos avançados a respeito de tudo quanto se pode imaginar daquela área em questão. Você não esperaria, por exemplo, ouvir algo do tipo: "O que faz mesmo esse botão vermelho?" de seu colega astronauta enquanto vocês viajam pelo espaço. Não, definitivamente esse não é um ramo que lhe permita cabular uma aula para ir jogar boliche, sob a desculpa de que na hora você improvisa, porque quando você estiver no meio de um campo de asteróides, ou sendo atacado por Klingons, não vai dar tempo de consultar o "Spaceships for Dummies".

Por outro lado, outras profissões parecem permitir, digamos, uma maior liberdade de atuação ao sujeito. Na verdade, há algumas, como a de vendedor, que podem ser praticadas sem o menor conhecimento do que se está lidando.

Para ser um vendedor, você não precisa mais do que saber lidar mais ou menos com as pessoas que lhe vierem fazer perguntas. Se entrar um sujeito totalmente perdido e sem saber qual modelo levar, você consegue se livrar facilmente dando informações genéricas sobre os produtos. Já fui atendido uma vez por uma mulher que, em resposta a meu pedido de uma ajuda para escolher um vinho, ela me leu os rótulos e a data de fabricação, adicionando aqui e ali adjetivos como "belo", "agradável", "em conta", etc. Não tem como não se sentir ofendido por uma coisa assim.

Não me levem a mal. Não sou um cara sem coração. Quando vejo que o cidadão está começando no serviço e está se esforçando ao máximo para me atender, por mais que não saiba nada, eu levo numa boa. Agora, você deve estar se perguntando como que eu sei reconhecer uma situação dessas. É muito simples: você pergunta algo a respeito de um produto e se tudo que o sujeito conseguir lhe dizer, além das obviedades como o nome da coisa, for alguma coisa do tipo "Ah, esse daqui tem saído muito", pode ter certeza que o cara é novo ali e não manja nada, ou que o produto é ruim demais e a única vantagem que ele tem é que há um número grande o bastante de pessoas burras o suficiente para comprá-lo e, portanto, você não se sentirá sozinho em sua ignorância.

Hoje me aconteceu algo assim. Fui comprar uma cachaça e a informação mais complexa que a moça bonita que me atendeu conseguiu me fornecer foi esse dado de consumo altamente eficaz. No entanto, ela compensou o fato de não saber nada de cachaça ao me deixar provar todas as garrafas de que eu lhe perguntava alguma coisa, e não era aquelas amostras grátis que quase não servem para molhar a língua; ela me deu uma bela dose a cada vez que me serviu.

Resultado: seja pela qualidade dos produtos, ou pela minnha inevitável embriaguez, levei uma garrafa de cada cachaça que experimentei.

Conclusão: dizem que a ignorância é uma bênção, mas dizem também que ela é a mãe de todos os males. Só me resta crer que o inventor do primeiro ditado tinha ido comprar bebida e o do segundo tinha ido comprar laxante.

 Escrito por Leo às 20h59
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Psicose

Como todos nós, eu também vivo e faço parte do sistema capitalista. Não vou negar que gosto de, hora ou outra, gastar um dinheirinho com alguma inutilidade. No entanto, há algo de perverso e desumano na forma pela qual as empresas nos fazem consumir seus produtos. Não é nem pelo fato do consumo em si, uma vez que, se você tem pelo menos dois neurônios funcionais, você saberá dizer o que é bom do que é ruim. O grande problema das propagandas - tão grande que me faria bani-las se eu fosse o governante - é quando passamos por uma espécie de lavagem cerebral para atingir o fim almejado de comprar algum produto.

Por exemplo, quando eu era moleque havia aquela propaganda do "Compre Batom", com um garotinho balançando uma das barrinhas de chocolate em frente à tela, como se estivesse nos hipnotizando. Na sala de aula, eu via meus colegas brincando com suas canetas e repetindo o mote da propaganda de forma assustadora. Não me supreenderia se algum dia os visse, após dois minutos repetindo o gesto e a frase, de repente passar a fazer a dançinha do "Thriller" do Michael Jackson, dizendo "Brains..." em uma voz gutural.

Dizem que o homem medieval era atrasado, mas tenho certeza de que ele não precisaria mais do que alguns segundos para compreender toda a vileza por trás de uma propaganda em que há alguém tentando hipnotizá-lo com chocolate.

Certa vez um professor meu, que tinha a voz engraçada e parecia uma caricatura ambulante, disse que a propaganda era a perversão moderna de toda a forma de poesia. Até que faz sentido, já que as melhores formas de anúncio tem em si o uso bem-sucedido de uma ou mais figura de retórica, que, aliás, são chamadas às vezes de "flores da retórica". Sinceramente, acho que o sujeito que deu de chamá-las dessa forma não tinha coisa boa em mente. Sem brincadeiras, já não é fácil ser um estudante de Letras, onde os homens são uma minoria comprometida pela suspeita de boiolice. Se, ainda por cima, você tem de reproduzir termos como esse para seus alunos, não há como manter um mínimo de masculinidade. Nem mesmo se você fizer voz grossa, coçar o saco e cuspir num canto antes de anunciar que o tema do dia são as flores da retórica, nem assim você vai ser levado a sério.

Enfim, voltando ao assunto, vou lhes dizer que talvez a propaganda mais sinistra que eu já tenha visto é a da Nvidia. No começo de praticamente todos os jogos modernos, você é forçado a ver o logo, acompanhado daquele sussurro tenebroso de uma mulher lendo o nome da empresa. Tudo bem que o nome da coisa é tão esdrúxulo que essa deve ter sido a única forma que eles encontraram de se assegurar que o povo não ia arrumar algum jeito cômico de pronunciá-lo. De uma forma ou de outra, talvez por ser um sussurro, ou talvez simplesmente pela forma com que nós jogadores somos obrigados a ouvir isso, esse sussurro consegue tomar um lugar de destaque no nosso inconsciente. Portanto, se algum dia você me vir na rua, me cumprimentar e, em resposta, eu lhe murmurar "Nvidia" numa voz que mistura sensualidade e psicopatia, não se espante.

 Escrito por Leo às 01h13
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