A psicanálise sob a ótica de um avestruz, parte III

É engraçado pensar como muitos de nós, mais ou menos inconscientemente, damos preferência ao que é preto. Talvez seja por conta de o preto ser misterioso, impassível em sua opacidade, ou talvez simplesmente porque metade dos seres humanos não tenha a menor noção de moda e, por conta disso, se abstenha de escolhas audaciosas, ao contrário da outra metade, que veste cores berrantes, ainda que também não entenda nada de moda. De uma forma ou de outra, desde os gregos, ou talvez até antes, a cor preta já fazia parte do imaginário coletivo, na forma das "naus negras".

De minha parte, quando era pequeno gostava de comprar um docinho no recreio. Sempre que a mulher da cantina perguntava qual Halls eu preferia, após uma breve inspeção das diversas tonalidades que indicavam toscamente seus sabores, eu escolhia o preto. Não é nem uma escolha racional, se você parar para pensar, porque preto nem é cor de nada com que se faça doce. O Halls preto nem tinha um sabor definido; ele era simplesmente extra-forte e congelava seu cérebro se você tomasse água junto com ele. Era horrível, mas mesmo assim todo mundo gostava do Halls preto.

Se esse exemplo não foi o bastante para você, pense na coca-cola: um troço que não tem nenhum valor nutritivo, tão borbulhante quanto um caldeirão de bruxa, que tem gosto de xarope e é capaz de transformar um osso em borracha se deixado de molho nela. Apesar de tudo isso, é o refrigerante mais consumido no mundo todo. Não há lógica nenhuma nisso se não se levar em conta a força psicológica que o negrume da coca-cola exerce sobre nossas pobres mentes.

Se, por algum acaso do destino você não gostar de coca-cola, ou, o que é mais provável, for desprovido da capacidade de ingerir refrigerantes, vá até a concessionária mais próxima e peça para ver os preços dos automóveis. Vai logo constatar que, por mais absurdo que seja, um carro preto custa mais caro que um carro branco. Aliás, talvez você nem chegue a fazer tal descoberta, já que às vezes é até preciso fazer encomenda se se quer um carro preto.

Não vou nem me alongar muito no assunto, porque se começar a falar de todas as referências a sombras na literatura, no cinema e, principalmente, nos jogos eletrônicos e nos RPGs, não vou conseguir terminar nunca. Para terminar e eliminar qualquer dúvida, pense no Batman e no Robin. Provavelmente, sua reação foi adjetivar o primeiro como "sinistro", ou "incrível", e o segundo como algo certamente no diminutivo e que só se usa para falar dos inimigos, ou dos amigos quando não estão por perto.

 Escrito por Leo às 22h50
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Antropologia for dummies

Meus pais têm um cachorro que é um inferno, mas a razão disso não vem ao caso agora. O fato é que, certa vez, deram a ele um brinquedo e, desde então, ele nunca mais o largou, até o momento em que minha mãe o distraiu e jogou o troço no lixo, quando ele havia perdido qualquer semelhança com a forma lúdica que um dia tivera e passara a se aparentar mais com um pedaço de dejeto industrial.

Antes desse passo radical, eles tentaram de tudo. Compraram brinquedos de todas as formas e tamanhos, variando a cor e o efeito sonoro obtido ao ser excruciado entre os dentes. Nada adiantava. Aquele brinquedo velho já estava tosco e nojento, mas ele tinha um algo de familiar; fazia parte das lembranças do animal e, por conta disso, ele não queria se desfazer do negócio de jeito nenhum.

A partir disso, ouso dizer que é essa necessidade de se apegar ao que é velho que separa os animais da mulheres. Sim, está certo o que você leu. Não é possível incluir os homens nessa afirmativa, pois nós homens não evoluímos em nada em relação aos animais nesse quesito.

Se você duvida, pare e pergunte-se há quanto tempo você não troca a sua carteira. De minha parte, posso dizer que faz pelo menos uns 7 anos. Hoje percebi que o motivo de eu derrubar moedas toda vez que eu a puxo do bolso pode ser explicado pela ocorrência de um furo gigante no compartimento de moedas.

O que fazer quando sua carteira fica incapacitada de carregar moedas?

Opção Feminina: trocar de carteira.
Opção Masculina: parar de carregar moedas.

Acho que esse é o tipo de coisa que vem definindo os gêneros há séculos. A maioria das mulheres tem compulsão por comprar sapatos e conheço algumas que possuem quase meia centena de pares. Os homens, por sua vez, poucas vezes tem mais que um par, o qual eles usam até que o solado se descole ou seus dedos comecem a aparecer pelos buracos, mas não antes de tentar retardar esse processo usando silver tape ou chiclete.

Aliás, essa tendência masculina de querer reparar o que está quebrado é algo que, certamente, faz com que a qualidade de vida dos casais seja inferior ao que poderia ser. Principalmente, quando o sujeito não tem tempo de consertar o que está quebrado, mas ainda assim, para não ferir seu orgulho e permitir que outro macho entre em seu domicílio para executar uma tarefa que é dele, impede que sua esposa chame um técnico.

Dizem que isso é egoísmo. Talvez até compre uma carteira nova se esse for o caso, porque estou farto de egoísmo. Hoje mesmo estava passando por um grupo de senhoras, que depois vim a perceber, pela sua conversa, que eram professoras. Uma delas disse: "É uma pouca vergonha terem sumido com os cartazes. Sumiram com eles e eu tinha tido tanto trabalho para fazer as crianças os fazerem."

Eu fiquei olhando e pensando comigo mesmo: "Caramba, hein? Ou a senhora gastou meses produzindo papel para os cartazes a partir de uma mistura de lágrimas e sangue, ou tem um ego maior do que sua barriga."

Mas isso não é nada, meus amigos. Quem de nós nunca sentiu uma necessidade de deixar sua marca no mundo, de ser lembrado pela eternidade por algo que fez? Às vezes, isso até nos leva a produzir obras grandiosas e úteis, mas, na maioria das vezes, o resultado é como o que vi hoje: um sujeito, definitivamente querendo gravar seu nome a ferro e fogo nos registros históricos, enfiou seu fuscão azul numa árvore, de modo que o veículo rampou nela e ficou pendurado a quarenta e cinco graus, num ponto da estrada em que não havia nada além de caminho reto pela frente.

Puro egoísmo, meus caros, puro egoísmo. É o tipo de coisa que previne o Brasil de ir para frente.

 Escrito por Leo às 20h07
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