Frustração e revolta

Algumas coisas jamais deveriam ser retocadas, ou melhoradas. No entanto, há sempre alguém, munido das melhores intenções, tentando aprimorar o que já estava bom, como, por exemplo, os filmes da trilogia original do Star Wars, ou a receita da Coca-Cola. É verdade que, às vezes, o resultado pode mesmo ser aceitável, sendo, raramente, até superior. Mas, grosso modo, o que se resulta desse tipo de iniciativa é simplesmente algo grotesco e que ofende nossas memórias sensoriais.

Esse é um martírio pelo qual eu sou submetido a cada vez que muda o dono da pizzaria local. É incrível, aliás, como eles sempre tentam nos enganar. Primeiro, você vai lá e tem um sujeito diferente do lado do sujeito com que você está acostumado, como que numa tentativa de adaptar você ao novo. Dali duas semanas, pronto: só há o sujeito diferente. Em princípio, ele ainda tenta manter os padrões antigos, mas é só dar mais duas semanas e tudo vai ter mudado, os ingredientes serão outros, o pizzaiolo será um estranho, e ninguém mais irá sorrir para você quando você chegar. Mesmo se alguém sorrir, não será de verdade; pode ter certeza.

Tenho certeza de que será um dia sombrio e terrível aquele em que eu entrar na padaria e o senhor simpático que sempre me atende tiver se aposentado. Depois que você se acostuma com algo, é difícil largar, por mais que esse algo nem seja lá tão bom.

Aliás, essa é, talvez, a fonte de uma das minhas maiores decepções com a indústria farmacêutica. Foi um ato criminoso, meus amigos, um ato criminoso fabricar um merthiolate que (pasmem!) não arde. Da primeira vez que vi, achei que era sacanagem, ou um daqueles medicamentos alternativos que não ofendem a pele, mas também não ajudam em nada. No entanto, quando me disseram que era para valer e que não ardia mais mesmo, meu mundo desabou.

Como puderam fazer uma coisa dessas? Agora, quando você faz alguma idiotice e se machuca, não há mais aquela saudosa e imediata punição na forma de um vidrinho pardo. Era praticamente um momento catártico, em que você se purificava de seus atos impensados e guardava a memória da dor que havia causado a si mesmo.

Eu me pergunto: o que será dessa nova geração, criada sem o merthiolate ardido? Já posso ver uma legião de filhos açoitando seus pais e virando comunistas antes mesmo de aprender a falar. Que mundo é esse, minha gente?!

 Escrito por Leo às 19h46
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Um título bem grande e esparramado pela tela sem o menor respeito pelos seus olhos, meus leitores

Algumas pessoas conseguem extrapolar todos os limites imagináveis da folga. Obviamente, isso ocorre sempre em alguma situação na qual você está desesperadamente apressado. É ainda mais interessante ver como a folga do sujeito à sua frente, seja no carro, na calçada, na fila do supermercado, ou em qualquer outro lugar, é proporcional à sua necessidade de terminar o que você está fazendo o mais rápido possível. É quase como se a vida, num arroubo de ironia, adicionasse um obstáculo a mais em seu caminho quando você já estava totalmente lascado, eliminando assim qualquer esperança de se safar. É mais ou menos como quando você está jogando algum jogo de tiro e, depois de vencer trocentos inimigos altamente armados, perde para um zé roela de tocaia com uma pistolinha.

Outra regra fácil de se observar é a seguinte: a folga do sujeito é potencializada pelo número de pessoas com as quais ele está junto. Às vezes, o cara nem é folgado por natureza, mas, quando sai com um amigo, ocupa a calçada inteira enquanto anda lentamente e conversa. É praticamente como se o mero fato de ele pertencer a um grupo, por menor que seja, lhe desse permissão para ocupar mais espaço do que as outras pessoas.

O ônibus é um dos lugares mais clássicos de se observar esse lado do comportamento humano. Por exemplo, já notou como, por mais que o ônibus esteja vazio, tem sempre dois ou três de pé junto à catraca, só para atrapalhar a passagem? Sem falar nas pessoas gordas, que geralmente ainda carregam mochilas que fazem delas ainda mais espaçosas quando de pé no corredor. Claro que se você precisar se espremer para passar por ela, você ainda vai receber um olhar de reprovação, sabe-se lá por quê.

É também no ônibus que se encontra com mais facilidade um dos exemplos mais terríveis de folga e ironia: aqueles adesivos com os dizeres: "Sorria! Você está sendo filmado!". Aquilo é de um mal gosto tremendo. Os caras nos filmam sem permissão, usam nossas imagens para o que bem entenderem, e ainda tiram um sarro da nossa cara, mandando-nos sorrir. O pior de tudo e que me deixa mais chateado é que na maioria das vezes ainda é sem motivo, por que pelo menos metade dos ônibus com essas etiquetas não tem câmeras coisa nenhuma! Além de tudo, mentem para a gente.

 Escrito por Leo às 22h04
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