Reflexões à sombra de um mundo vário

Você alguma vez já teve a estranha sensação de ter passado de nível? Acho que é uma das sensações mais deliciosas e ignoradas dessa vida, a sensação de passar de nível. É um momento mágico, antecedido por horas sem fim de treino, e que se apresenta com a grandeza de um reconhecimento trágico, só que ao inverso, pois, em geral, é bom passar de nível.

Eu me dei conta disso outro dia enquanto tocava violão. Estava há dias tentando aprender uma música e, de repente, não mais que de repente, eu consegui tocá-la e tive a nítida impressão de ter visto uma luz branca se erguer de minhas mãos, portando os dizeres "LEVEL UP".

Realmente, é bom demais. Claro que há o lado negativo também, uma vez que, logo que passa a euforia, você se dá conta de que vai levar um bom tempo até você passar de nível novamente. Isso sem falar que quanto mais você passa de nível, mais você sente que falta muito ainda para chegar à perfeição, já que sua noção de poder se amplia numa progressão superior à sua habilidade propriamente dita. Mas pior ainda é o fato de que, conforme você vai deixando de ser café-com-leite, sua proteção contra os sujeitos mais apelões que existem por aí vai ficando cada vez menor e você vai se tornando mais e mais suscetível aos ataques deles.

Algumas pessoas têm medo da morte. Para elas, não há nada mais terrível do que imaginar que um dia, do nada, vão ser apresentadas àquela tela escura maculada pelas palavras "GAME OVER".

Há também aqueles que temem não viver uma vida digna e, ao final dela, serem esmagados pela frieza de um "YOU LOSE". Com efeito, poucas coisas conseguem ser tão cruéis como os letreiros gigantes de "YOU LOSE" de certos jogos. Não é o bastante você ser humilhado e ter perdido; é preciso também que o jogo tire um sarro sem tamanho da sua cara. Do contrário, você não terá tido uma experiência plena ao jogar.

Além dos otimistas que esperam uma existência em meio a nuvens espúmeas e um céu de anil, ornamentadas por um "THE END" em caligrafia perfeita, há também os que simplesmente esperam que a coisa recomece novamente, após um breve período de randomização dos parâmetros iniciais da existência e dos desafios a serem enfrentados.

Entre esses últimos, claro, existem alguns seres que esperam guardar toda a experiência da vida passada e acabam adquirindo um asco de tudo que há no mundo, por já conhecerem de tudo e terem vivido de tudo.

Essa, então, é minha explicação de como nascem os powergamers, os paranóicos, os emos, os evangélicos e os góticos. Boas festas a todos, independente de suas loucuras.

 Escrito por Leo às 16h17
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