A sabedoria proverbial da antiga China e o modo pelo qual eu a ignoro

As estações mudam, o ano é outro, as pessoas se cumprimentam na rua com votos esperançosos e às vezes até verdadeiros, mas meu vizinho continua brigando com sua mulher. É algo tão grotesco e perturbador que eu não tenho como deixar de reparar. Creio que o fator mais interessante disso tudo seja que eu não consigo ter a menor noção de como duas pessoas conseguem passar tantas horas, durante tantos anos, brigando sem parar. De vez em quando, eu me pego testanto toda sorte de teoria, numa busca inconsciente pela solução desse problema, talvez mais intrigante do que a composição daqueles guarda-chuvinhas que a gente comia quando criança, e que são tão porcos e mal-feitos que mancham o papel em que estão envolvidos, como se alguém tivesse passado tinta marrom nele. Obviamente, é uma das coisas mais deliciosas da vida, como tudo que faz mal, é proibido, ou vai revoltar outrem ao ser feito.

Após já ter praticamente esgotado meu repertório de pontos de vista diferentes pelos quais analisar a situação, lembrei-me de meu querido avô, cuja filosofia de vida e força me inspiraram a ser uma pessoa melhor. Meu avô é um sujeito muito divertido, além de ser um daqueles homens admiráveis e capazes de construir de tudo com as próprias mãos, ainda que, muitas vezes, quase as perca no processo. Lembro-me de que, certa vez, durante uma visita que lhe fiz, estava contando a ele a respeito do pai da minha namorada daquele tempo. Creio que o assunto veio à tona por conta dele ter mencionado algum sujeito que tinha pego câncer e estava para morrer, ao que ele sentenciou que era uma doença maldita e praticamente sem cura, da qual ninguém se safa. Eu, então, contei-lhe que o pai da moça havia tido câncer, mas que, após a operação, nunca mais tivera problemas. Meu avô achou estranho de início, mas logo depois deu um sorriso maroto e me perguntou se ele, após a operação, tinha se separado da mulher. Fiquei chocado e disse que sim, perguntando-lhe, em seguida, como ele havia adivinhado, ao que ele me respondeu que "Todo mundo sabe que a única forma de se curar de câncer é extrair o tumor inteiro, cortar o mal pela raiz. Senão, ele volta". Rimos bastante e fui obrigado a dar um certo crédito à conjectura dele.

Tendo, então, a sabedoria de meu avô em mente e analisando a situação por esse novo ângulo, passei a sentir pena de meu vizinho. Afinal de contas, para um sujeito se tornar tão violento e colérico, gritar tão alto e durante tanto tempo, ele deve ser casado com uma megera sem igual. Nesse momento, tudo fez sentido para mim. Entendi por que eles brigavam tanto e por que a mulher não largava dele, nem chamava a polícia. Devo lembrar-me de agradecer meu avô da próxima vez que o vir pelos ensinamentos valiosos que ele me deu a respeito da natureza dos casais.

 Escrito por Leo às 14h37
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