Como fazer amigos e influenciar pessoas na antiga China

Nesta semana, graças à sabedoria artesanal da antiga China, revivi uma experiência tipicamente dos anos mais tenros de um vivente. O fato é que a minha namorada comprou para si um conjunto de Kung Fu Chio, que se tratam de duas esferas de metais ocas, dentro das quais há pequenas placas de metal que soam como sininhos. A utilidade de tais esferas, em princípio completamente questionada por minha pessoa, é a de massagear os nervos e emitir vibrações através do seu corpo, de modo a relaxá-lo, purificar sua mente, curá-lo do câncer, aprimorar seus sentidos e prolongar sua expectativa de vida. Também podem ser usadas por cegos para jogar golfe, ou para nocautear invasores, se empregadas como projéteis.

Como tudo que vem da antiga China, elas são, obviamente, perfeitas e mais úteis do que um canivete suíço. Aliás, imagine o quão mais apelão não seria o MacGyver se ele levasse consigo artefatos desse tipo? Não, é melhor não pensar a respeito, nem falar disso em voz alta, pois pode alimentar planos de dominação global por alguma mente terrorista.

O fato é que, alguns dias depois da chegada das tais Kung Fu Chio, eu resolvi testá-las enquanto usava o computador para aporrinhar as pessoas que perfazem minha lista do MSN. Depois daquele momento inicial de repulsão jocosa, eu comecei a achar que a coisa até que não era tão ruim. O barulhinho era aceitável e as esferas podiam ser movimentadas em círculos na palma da mão bem facilmente. Não tardou e eu já não mais conseguia parar de movê-las. Precisava testar todos os movimentos possíveis, qual a velocidade máxima atingível, e quais os sons que eu poderia tirar delas.

Mas isso passou também. Logo, o período de empolgação também se foi, deixando em seu lugar apenas aquele estado quase catatônico em que as pessoas se encontram, por vezes, quando vendo TV ou escalando o Himalaia. Acho que esse deveria ser o objetivo do instrumento: ajudá-lo a alcançar um estado de meditação induzido pelo movimento repetitivo e pelo som suave das esferas. No entanto, para mim, funcionou ao avesso. Eu comecei a ficar cada vez mais agitado, movendo os pés e as pernas freneticamente enquanto batia as bolinhas umas contra as outras, arrebatado pela coisa de tal modo que, na minha mente, eu conseguia filtrar a cacofonia produzida e imaginar-me tocando a suíte do quebra-nozes.

Foi então que entendi a razão da Kung Fu Chio sempre virem, em qualquer foto que você procurar na internet, numa caixinha que pode ser fechada e isolada em algum lugar fora do seu alcance. Se preciso, podem também ser trancadas com cadeado ou soldadas com metal em estado de fusão.

Até nisso os chineses safados pensaram.

 Escrito por Leo às 21h46
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