O crepúsculo do ser perante a vileza de seu Zeitgeist

Lembro que a primeira vez que joguei Nintendo foi na casa de um amigo meu. Eu tinha por volta de cinco anos de idade e mal sabia o resumo do vislumbre de tudo que o mundo moderno podia nos oferecer. Tudo começou por conta de algo inocente e quase desinteressante. Depois de alguns dias aprontando no prédio, subindo escadas, destruindo brinquedos e aporrinhando os vizinhos, chegamos a um estado de tédio sem limites, do qual não parecia haver saída alguma, exceto voltar para a casa dos meus pais e dar um fim prematuro àquela estadia. Estávamos esparramados no sofá da sala, olhando para o nada e maldizendo as dezenas de lances de escada que havíamos subido antes de darmo-nos por saciados daquela atividade. Foi então que ele me disse: "Tem um videogame guardado lá no armário. Se você quiser, a gente podia jogar."

Foi assim. Totalmente por acaso, sem nenhuma promessa de maravilhas ou mesmo qualquer gota de entusiasmo. No entanto, foi ali que se iniciou uma parceria de esgamento de botões que permeou boa parte da minha juventude. Partimos numa fúria descontrolada atrás de todos os jogos de todas as locadoras, acabando um atrás do outro, como que levados na torrente entorpecedora daqueles pixels gigantes.

Antes disso, eu já havia experimento Atari, mini-games e outras coisas mais. Todavia, foi o Nintendo 8-bits que realmente mostrou o quanto um jogo podia ser variado e divertido. Esse jogo foi Double Dragon II, cujas músicas até hoje tocam em alguma zona perdida de meu cérebro.

Tudo que veio depois foi fruto disso, creio eu. Desde então, venho jogado de tudo, em todas as plataformas que consegui acessar e em todos os gêneros, ao ponto de que nem o "beat 'em up" da Sailor Moon me é estranho. Todavia, mesmo tendo jogado centenas de jogos durante horas sem fim, até hoje há algo que não consigo entender, que simplesmente não me entra na cabeça.

Paciência.

Não digo para eu próprio ter paciência, mas me refiro ao famigerado jogo de cartas que todas as pessoas donas de uma cópia do Windows têm. Sinceramente, prefiro jogar Pong contra mim mesmo do que jogar Paciência. No entanto, é provavelmente o jogo mais socialmente aceitável que você pode encontrar.

Não acredita? Imagine o seguinte então: você entra numa loja de softwares e encontra o vendedor numa corrida de alta velocidade no Need for Speed do computador da loja. Você, no mínimo, balança a cabeça de um lado para o outro e maldiz a modernidade por lobotomizar as pessoas com seus aparelhos infernais.

Agora, se, ao invés disso, você chegasse lá e o visse jogando Paciência, acharia normal e não pensaria duas vezes antes de ir cutucá-lo e pedir informação. Paciência é praticamente um indicador de que o sujeito está no aguardo de conseguir algo melhor para fazer, pois no momento, infelizmente, não há nada que ele possa produzir de útil devido a algum evento injusto do destino. É quase que um apelo por socorro. Se alguém me diz que vai jogar Paciência, sinto uma necessidade de perguntar se está tudo bem, se alguém na família morreu, ou se há alguma previsão do fim do mundo a caminho.

Ao menos assim, há um equilíbrio na balança de jogar jogos bons e não ser compreendido e jogar porcarias e fazer parte da sociedade.

 Escrito por Leo às 23h26
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]



Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
 
Histórico
  17/02/2008 a 23/02/2008
  03/02/2008 a 09/02/2008
  27/01/2008 a 02/02/2008
  20/01/2008 a 26/01/2008
  09/12/2007 a 15/12/2007
  28/10/2007 a 03/11/2007
  21/10/2007 a 27/10/2007
  21/01/2007 a 27/01/2007
  14/01/2007 a 20/01/2007
  07/01/2007 a 13/01/2007
  24/12/2006 a 30/12/2006
  17/12/2006 a 23/12/2006
  10/12/2006 a 16/12/2006
  03/12/2006 a 09/12/2006
  26/11/2006 a 02/12/2006
  19/11/2006 a 25/11/2006
  12/11/2006 a 18/11/2006


Outros sites
  Eugraphia - o site