Evolucionismo e você: como sobreviver e se tornar uma pessoa melhor

O tempo passa e muda tudo. Estações se sucedem, gerações se alternam, opiniões mudam, amigos tornam-se estranhos. É inevitável e inegável o fato de que todos nós estamos, lenta e constantemente, nos transformando dia após dia. Uns, para melhor; outros, nem tanto. Uma coisa, contudo, é universal: o tempo passa e ninguém fica mais jovem.

Há, contudo, quem enfrente essa mudança com um otimismo digno do "Cândido" de Voltaire. Quem nunca ouviu alguém dizer que as pessoas são como o vinho: só tendem a se aprimorar com o tempo.

Talvez seja verdade. Conheço, de fato, um bom número de pessoas que, com o passar dos anos, se tornaram indivíduos admiráveis. Por outro lado, há também aqueles a quem a ação do tempo pouco parece ter feito a seu favor, mais ou menos como um vinho de mesa. Alguns outros parecem ter atingido seu ápice na juventude, e os que não foram corretamente consumidos nessa idade, em geral, tendem a adquirir um azedume notoriamente impróprio.

É claro que nem tudo são lágrimas na vida de um sujeito avinagrado. Só é preciso saber apreciá-lo em circunstâncias leves, como saladas, mas sem exagero e em doses homeopáticas, pois nada é pior do que quando você engasga no vinagre, sabe? Quando ele desce errado, queima a garganta e faz você ficar temporariamente com a voz do Pato Donald. É uma experiência terrível e lacrimejante.

Há ainda algumas anomalias na regra geral. As pessoas, como os vinhos, precisam ser tratadas de uma certa forma para amadurecerem corretamente. No entanto, ao menos duas vezes, comprei uma garrafa de vinho no mercado aqui perto, onde ela estava estocada porcamente e, pelo que notei, triste e enfurecidamente, ao chegar em casa, a própria rolha estava se esfarelando. Já estava a ponto de voltar ao estabelecimento que me havia ludibriado com aquela ofensa à tradição enológica ocidental quando me dei conta de que o vinho, na verdade, não estava cheirando tão mal assim. Na verdade, após uma breve inspeção, constatei que ele estava inexplicavelmente formidável!

Acredito que as condições adversas às quais aquela garrafa estava exposta acabaram fazendo com que ela amadurecesse mais rápido do que o normal, mais ou menos como o que acontece com uma criança que tem de lidar com o mundo adulto antes do tempo. Foi algo tão cativante, que logo voltei ao mercado para comprar outra da mesma garrafa. No entanto, essa já havia sucumbido a seu ambiente e se deteriorado. Testemunhei o ápice e o declínio daquela geração de vinhos e sobrevivi para relatar o caso a vocês, meus leitores.

Por algum motivo, quando eu pensei nessa crônica, achei que ela seria engraçada e divertida, mas me parece que esse final se precipitou num abismo de melancolia e pessimismo. Deixe-me ver se consigo virar a mesa e fazer isso ficar cômico. Ah, sim, um pensamento jocoso: havia ainda mais várias garrafas daquela mesma safra e eu não avisei a ninguém que estavam estragadas.

 Escrito por Leo às 02h07
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Como ser feliz, ter sucesso, e remover caroços de melancia sem se lambuzar muito

Com efeito, diariamente, somos obrigados a conviver com humanos, essa raça estranha e incomum, cujos hábitos e costumes são, ao mesmo tempo, fascinantes e injusticavelmente repulsivos. Para as ocasiões mais cruciais de nossas existências, há regras bem-definidas e pré-estabelecidas, feitas para nos salvar de questões de vida ou morte, como, por exemplo, a maneira correta de se comer uma lagosta. Para as mais corriqueiras, no entanto, vemo-nos arrebatados por uma correnteza de dúvidas e gafes que, certamente, poderiam ser evitadas com a criação de um manual de Etiqueta para situações não-convencionais. Enquanto meu caro amigo Antonio não lança o manual definitivo, creio que se faz necessário um guia temporário, ou, se quiserem, uma muleta comportamental para preencher essa lacuna em nossas psiques.

Se você é como eu e acredita que a atividade mais penosa de sua existência é deixar o conforto do lar para ir à padaria, certamente já se encontrou em maus lençóis quando, num dia especialmente movimentado, uma mulher desvairada resolve atravessar com seu carrinho de supermercado o vão entre a prateleira ao lado e a fila para pegar pão, ainda que você, por um infortúnio do destino, estivesse praticamente terminando de o cruzar no sentido oposto. A boa educação dizia antigamente que se devia sempre dar passagem a mulheres. No entanto, com o advento do feminismo, tratar as mulheres diferencialmente se tornou algo ofensivo a seu sexo, o que pode levar uma mente masculina bem-intencionada a um curto-circuito.

Por essas e outras, uma vez mais, vê-se a necessidade de um tratado que estabeleça uma lógica única a ser seguida no dia-a-dia. Mas não se preocupem, amigos, pois, antes que percam a razão tentando desvendar esse mistério, vou dar-lhes a solução, seguida de comentário: se se tratar de uma mulher bonita, dê passagem; do contrário, continue andando e se engalfinhe com ela, derrubando o sujeito ao lado e três pilhas de pepinos em conserva.

A verdade é que as pessoas bonitas deslizam pela vida sem muitas dificuldades, pois todos as tratam bem. As feias, por outro lado, estão acostumadas a não ter quaisquer regalias e, muitas vezes, sentem-se até discriminadas quando bem tradadas. "Obviamente, você está me dando passagem por que se comoveu com minha feiúra. É por causa de porcos como você que o Brasil não vai para frente".

Se se tratar, por outro lado, de alguém do mesmo sexo, vale o bom senso, que nesse caso, significa "Dê passagem para o sujeito muito maior que você". Caso sua orientação sexual seja a oposta do comum, então, creio que valha o oposto. Caso você jogue para os dois times, use apenas a primeira solução, para aumentar suas chances de flertar com alguém interessante. Caso seja assexual, procure ajuda médica.

 Escrito por Leo às 23h37
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"Profissão de Fé"

Ao contrário da maioria das profissões, o artista padece de um mal incomum, especialmente num país emergente como o Brasil. Aliás, país emergente é um daqueles eufemismos que quase ofendem. A carga de otimismo neles é tão grande que só podem ser gozação ou fruto de uma mente desvairada.

Mas eu divago.

Dizia que o artista, sim, o artista é um sofredor. Feliz é o marceneiro, o padeiro, o pedreiro, pois ninguém jamais no mundo, eu creio, chegou a um desses e lhe negou sua profissão. Nunca se ergueu uma casa só para, em seguida, ouvir alguém dizer que aquilo não é uma casa. Pelo menos, não antes do Modernismo, quando as pessoas ainda eram sãs e os loucos eram mantidos em cativeiro, e não idolatrados como profetas de um novo mundo.

Mas vejam só: aí está um típico exemplo desse mal de artista. A arte é tão subjetiva que qualquer infeliz é capaz de apontar um dedo e negar seu valor, como acabo de fazer, por mais que eu, obviamente, tenha razão. Por esse motivo, o artista passa seus dias a questionar-se se o fruto de seu lavor é ou não arte.

Disso, nasce um outro distúrbio sintomático: a busca de validação por meio da crítica alheia. Em outras palavras, o aspirante a artista começa, então, a aporrinhar todos os viventes a seu redor para ler os poemas que escreveu, analisar o quadro que pintou, vivenciar os muitos ruídos daquilo que ele, sem o menor decoro, chamou de música.

O início de uma trilha nunca é fácil e aqueles que estão nela há mais tempo do que nós sempre podem nos ajudar, aclarando as sombras de nossas incertezas com a sabedoria que somente o tempo proporciona. Foi como disse um de meus professores certa vez: "Sei que muitos de vocês, estudantes de Letras, são escritores de prosa e verso, e gastam muito de seu tempo lapidando suas obras com esmero. Eu, realmente, acho ótimo que vocês escrevam..., mas não me peçam para ler, porque eu não estou interessado".

Acho que foi umas das coisas mais inspiradoras que um professor meu já me disse, perdendo apenas para quando, após ler um poema meu, um deles me falou: "Você é jovem. É fácil escrever sobre o amor quando se é jovem. Quero ver você escrever sobre o amor quando tiver a minha idade. Quero ver você escrever sobre o apoético. Quero ver você escrever sobre a merda".

Não sei se o mais triste foi eu ter seguido o conselho dele ou o fato de que o fruto de tal conselho foi considerado por alguns minha obra-mor. De uma forma ou de outra, pelo menos me serviu para curar desse mal de escritor.

Mentira.

 Escrito por Leo às 02h44
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Black Belt in Marital Arts

Muitas pessoas hoje em dia têm certa apreensão quanto a compromissos mais sérios e monogâmicos. Aliás, creio que a própria acepção de "monogamia" tenha se tornado algo além da compreensão do ser humano médio, mas isso não vem ao caso no momento.

De um lado, há aqueles que não dispensam sua liberdade individual de ir e vir e fazer o que lhe der na telha. De outro, há os que, simplesmente, temem que passar para uma nova etapa do relacionamento possa significar que tudo irá mudar para pior. Contudo, parece-me que há um porém ignorado por ambos os casos, uma qualidade ímpar que separa a relação compromissada das demais e que a eleva a um status superno. Certamente, trata-se daquele inefável sentimento de completude, unicamente atingível quando se ama e se é amado, quando se importa para alguém que lhe é importante, quando duas vidas se juntam num objetivo comum.

Creio que esse seja o tipo de coisa que só se tenha certeza quando não se a tem mais, ou ao final de uma vida em conjunto. Enquanto isso, no entanto, nem tudo é prejuízo e temor. Pelo contrário, há de se perceber que, ao morar junto com seu consorte, deixa-se de estar intrinsicamente compromissado aos famigerados passeios de fim-de-semana. Com efeito, vocês passam a se ver todo dia. Têm todo o tempo do mundo para ficarem juntos. Desta forma, quando você concordar em não ver o jogo do São Paulo para visitar um museu, vai ser ponto positivo para você, ao invés de simplesmente a corrobação de um dever expressamente imposto. Você passa de vilão a herói e arranja tempo para atividades em grupo engrandecedoras, como fortalecer o vínculo entre seus amigos em campo aberto, à luz do sol, trocando tiros de paintball, imprecações e hematomas.

Por outro lado, o sujeito que prefere um namorico comum acaba gastando uma fortuna semanalmente, criando discórdia entre os amigos por nunca aparecer para nada, além de estar constantemente à mercê de ser abduzido por alienígenas. Ok, na verdade, não, mas me pareceu que a adição de um terceiro ítem à lista era importante.

 Escrito por Leo às 22h47
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