O enigma do aço

Acredito que estaremos um passo mais próximos do auto-conhecimento quando algum estudioso, numa epifania magistral, der à luz a filosofia definitiva. Posso imaginá-lo, absorto em pensamentos e curvado sob uma miríade de tomos ancestrais, prestes a desistir de sua árdua tarefa e da vida de modo geral, quando de repente lhe chega a inspiração e o arrebata de seu estado natural para um mundo em que todas as idéias se encaixam numa cadeia de assombrosa perfeição.

Seria muita petulância de minha parte querer vislumbrar o verdadeiro teor de tal obra, mas creio que, por ter imaginado a possibilidade de sua existência, possa esboçar algumas conjecturas a seu respeito sob a autoridade de profeta. Prevejo, então, que o título deverá ser algo como "A maneira Conan de viver e prosperar".

Antecipo que a premissa básica dessa filosofia será a de aplicar o método Conan de lidar com problemas para todos os setores da vida. Haverá uma inexistência de barreiras divisórias entre vida pessoal, trabalho, comunidade e família. Tudo quanto existe e todas as possibilidades de ação serão medidas sob a simples e eficaz ótica bárbara de acabar com os obstáculos a seu sucesso, observar seu trabalho perfazer-se e desfrutar do resultado de seus esforços. Imagino que, com isso, o nível de estresse mundial se verá drasticamente reduzido, pois tudo que causar agravo aos homens será indubitavelmente eliminado num piscar de olhos sob o fio da espada, o que, certamente, significará a inexistência de serviços como assistência técnica para eletrodomésticos e eletrônicos.

A versatilidade, simplicidade de adesão e bom plano dentário certamente farão com que esse modo de viver se torne rapidamente popular entre as camadas mais cultas e abastadas de nossa sociedade. Haverá, em seguida, uma versão econômica para distribuição em massa, que logo subverterá a essência desses ensinamentos em tema de pagode. No entanto, àqueles que atentarem com esmero às doutrinas do método Conan, restará ainda a promessa de viver o resto de seus dias com uma trilha sonora de Basil Poledouris adaptada a seus eventos cotidianos.

 Escrito por Leo às 17h36
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Como viver melhor e solucionar problemas

Sou um grande apreciador de molhos. A geladeira aqui de casa está sempre cheia, mas poucas vezes há qualquer coisa comestível por si própria à exceção de pilhas e pilhas de hambúrgueres. Tem pote de tudo quanto é coisa para todo o lado. Só de molho barbecue, há mais de meia dúzia. Pimenta, então, não dá nem para contar. Molho de tomate e mostarda também não faltam e o curry é de lei.

As pessoas estranham ou acham graça dessa minha tara por condimentos. Alguns chegam a pensar que é algum distúrbio ou doença contraída quando eu era criança e morava no mato, onde provavelmente fui atacado por criaturas bestiais e mitológicas, como toda criança que se criou no mato. Outros simplesmente olham com incrédula reprovação, culpando a modernidade e o declínio da civilização ocidental, que tantos males trouxe para dentro de nossos lares.

A verdade é que há uma fundamentação filosófica para essa desmedida ingestão de molhos e condimentos. A meu ver, os molhos estão para a comida assim como o humor está para a vida. Há sempre momentos difíceis ao longo de nossa existência que, sem dúvida alguma, podem ser facilmente contornados com um pouco de bom humor. Assim como o riso ajuda a engolir os incontáveis insucessos que todos acabamos enfrentando, o molho, esse incompreendido fármaco, nos ajuda a lidar com alimentos mais saudáveis, porém sem gosto, como produtos de soja, hambúrgueres de frango e saladas em geral.

É claro que, no final das contas, se você fizer a matemática de tudo, o molho provavelmente tem tranqueiras negativas o bastante para tornar tudo o que há de positivo no alimento saudável que você ingeriu completamente irrisório. Mas é preciso pensar nisso tudo como uma preparação para o futuro e entender a brava luta contra os steaks de frango sabor isopor como um treinamento constante para vencer as dificuldades da vida.

 Escrito por Leo às 02h09
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Urinar contra o vento dá gonorréia

É comum ouvir dizer que se tem medo do escuro, ou de ir ao dentista. Da mesma forma, há muita gente que morre de pavor de ser assaltada. De minha parte, devo dizer que nada disso me assusta muito, mas, por outro lado, se vier falar de bruxaria perto de mim eu saio correndo.

Como bruxaria, incluo todas as formas indiretas de se fazer mal a outrem. As modalidades desse esporte, como esperado, são muitas e vão desde as crendices populares como varrer os rastros de uma pessoa para que ela nunca mais volte, ou colocar duas vassouras juntas num canto da casa para gerar discórdia entre os familiares, até o uso inusitado e maquiavélico do Feng Shui, pelos empresários chineses, para lesar a concorrência. Inclusive, para os orientais, o assunto é tão sério que os sujeitos chegam a pagar para que se façam obras na rua no lado especificamente vulnerável, em termos de energia, do prédio adversário, a fim de perturbar seu equilíbrio cósmico e prosperar a partir da desgraça alheia. Não contentes com isso, às vezes ainda eles próprios compram um terreno adjacente e lá iniciam obras, adicionando uma rebarba gigante na arquitetura do prédio para canalizar e alvejar o inimigo com a energia do local. É um negócio tão sinistro e absurdo que daria até roteiro para o "Pinky e o Cérebro" e faria o Doctor Evil se encolher de vergonha.

Nesse caso do Feng Shui do mal, há uma tradição milenar que é capaz de explicar com detalhes e demonstrações empíricas o funcionamento do ritual. Quem já viu um daqueles monges malucos furar vidro com arremesso de agulhas não vai ter muita dificuldade de acreditar que os chineses sabem o que estão fazendo com a arquitetura perversa de seus edifícios.

Por outro lado, a crendice popular desprovida de qualquer fundamento ou racionalização me parece muito mais perigosa e devastadora. Afinal de contas, se existe uma explicação para um fenômeno, é, em primeiro lugar, muito mais fácil de compreendê-lo e armar-se contra ele. Em segundo lugar, sua correta aplicação, por ser algo comprovadamente eficaz, depende apenas da técnica, ao passo que, para fazer algo completamente infundado e absurdo dar certo, é preciso de uma quantidade impensável de força de vontade e fé. O sujeito que chega na sua casa e, discretamente, revira seus sapatos e chinelos para causar a morte da sua mãe é mil vezes mais perigoso do que um empresário chinês e deve ser tratado como um terrorista.

Portanto, suspeite de pessoas com comportamento aparentemente errático e, na ocasião de decidirem visitá-lo, jogue sal no fogo para evitar que apareçam. Falhando isso, galhos de arruda atrás da orelha são a ordem do dia.

 Escrito por Leo às 16h53
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O pináculo do contentamento

Acredito ser alguém de certa forma capacitado para asseverar a grandeza da ironia e do sarcasmo como as figuras de linguagem mais divertidas de nossa língua, com exceção tão-somente da catacrese, cujo nome é tão esdrúxulo que mais parece uma interjeição caipira do que um termo técnico. Certas pessoas, no entanto, não parecem ter muita noção de como e quando empregar esses recursos lingüísticos e, em sua ignorância, acabam se tornando seres de caráter abominável. Em vista disso, tomo a liberdade de tecer algumas recomendações para que se evitem gafes desnecessárias por conta do uso despiciendo da ironia.

O primeiro fundamento a se atentar é a graduação. Se se trata de um amigo caro que acaba de fazer-lhe um comentário desmerecedor de qualquer injúria, é preciso moderação na causticidade do impropério. Da mesma forma como os policiais sabem que em amigo não se atira sem motivo com calibre maior do que 9mm, também não é bonito se valer de insultos desmedidos nessas ocasiões.

Em seguida, há de se perguntar se o que se irá dizer é realmente uma brincadeira ou não. Se você tem alguma convicção da veracidade do que está prestes a proferir, talvez seja melhor repensar seus motivos. A não ser, obviamente, que a intenção no momento seja a de ofender mesmo. Nesse caso, pode crer que está no caminho certo.

Deixei por último a parte mais importante e cujo emprego impensado mais me enfurece. Trata-se daquele tipo de frase repleta de falsa cordialidade e enunciada com inegável ódio. Outro dia, por exemplo, quase mudei de idéia de comprar minha torta de limão quando ouvi a moça da padaria chamando as pessoas em minha frente na fila de "querido" ou "querida", mas num tom que beirava a vociferação. Prefiro que me chamem de filho da puta de uma vez do que me venham com tamanha falsidade. É algo até insalubre, pois o sujeito que se nega a descarregar toda essa ira de forma contundente vai, com certeza, acabar com uma úlcera na melhor das hipóteses, ou perdendo a cabeça matando meia dúzia com uma uzi na pior.

Reitero, então, meu pedido que se atente ao uso da ironia no cotidiano e resumo brevemente o que disse para que não se esqueçam: frases irônicas e bem-humoradas são ótimas para se dizer a amigos; frases odiosas e marcadas pela subversão de tudo que se crê bom nesse mundo não devem ser ditas a ninguém que se preze cara-a-cara. Pelas costas, é outra história, claro, como o caso do sujeito por que passei outro dia na rua enquanto ele se referia à mulher dele como "minha digníssima esposa". Na ausência do objeto de execração, a ironia mordaz se torna algo de bom gosto por denotar as mais horríveis imprecações sem ofender o ouvido dos pudicos e das crianças.

Com um pouco de bom senso e treino, tenho certeza de que todos poderão aprender o correto uso dos vitupérios e, assim, tornar-se pessoas melhores, viver muitos anos e prosperar.

 Escrito por Leo às 17h31
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Cinefilia Passiva

Tenho um verdadeiro fascínio pelo cinema. Poucas coisas na vida são melhores do que parar o ritmo diário por algumas horas e experimentar a existência a partir do ponto de vista de um outro ser complexo. Tamanho é esse encanto que houve até uma época em que via, religiosamente, ao menos cinco filmes por semana. Infelizmente, por questões monetárias e pelo próprio limite do catálogo das locadoras do bairro, vi-me obrigado a diminuir essa quota de maneira considerável.

Há, contudo, uma experiência semelhante que, além de não me custar nada, é muitas vezes ainda mais prazerosa do que assistir ao filme propriamente dito. Pode parecer estranho, mas na maioria das vezes gosto mais de ouvir alguém me contar um filme do que o ver eu mesmo. Obviamente, há exceções a essa regra, mormente nos casos de filmes extraordinários ou de pessoas incapazes de constituir um discurso coerente ou interessante.

De outro modo, sempre me ocorre de gostar mais de ouvir alguém narrar um filme que lhe é caro do que, motivado pela narração, mais tarde ver a história com meus próprios olhos. Na maioria das vezes, a segunda experiência é notavelmente inferior à primeira. Parece-me que, quando alguém realmente gosta de um filme e tem alguma capacidade para contar uma história, torna-se capaz de melhorá-la ainda mais, torná-la ainda mais interessante.

A paixão com que essas pessoas acabam narrando a história solidifica sua convicção na grandeza da trama, fazendo com que mesmo aqueles momentos filmados com um certo receio de recair no ridículo se tornem mais aprazíveis. Parece-me que essa é uma das características mais importantes do narrador, que no fundo é um vendedor de histórias: ter fé que seu produto é merecedor da maior atenção e reverência, proferindo, assim, cada frase como se ela fosse a verdade mais importante a que se ater naquele momento e, desta forma, alçar o leitor num vôo repentino e fantástico por terras distantes e sentenças desnecessariamente longas como essa.

 Escrito por Leo às 18h48
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Arcanologia

Há uma certa magia na ignorância do funcionamento de alguns aspectos do mundo. Parece haver uma proporção bem-definida entre o deslumbramento causado por alguma coisa e sua banalidade. Por exemplo, o algodão-doce: não há uma única criança neste mundo que tenha ficado cara-a-cara com essa entidade e não tenha lacrimejado, ainda que simbolicamente, ao contemplar a maravilha insólita de sua compleição. No entanto, uma vez explicada sua verdadeira natureza e o processo corriqueiro pelo qual é criado, o algodão-doce até deixa de ser gostoso. Lembro que a última vez que o comi foi alguns minutos antes de formular a maldita pergunta que me revelaria para sempre a ontologia dessa guloseima e me privaria da feliz e mágica ignorância em que me encontrava.

Certa vez, durante a faculdade, coube-nos analisar "A Máquina do Mundo", de Drummond. Naquele evento, meu amigo Antonio fez uma interpretação que, certamente, explica até certo ponto a problemática do assunto desta crônica. O eu-poético do poema, que se pode personificar, por analogia, como este que aqui vos fala enquanto criança rotunda e feliz, buscava incessantemente entender o funcionamento do mundo, que, por sua vez, é representado neste caso pelo algodão-doce. Contudo, quando finalmente lhe é oferecido elucidar o segredo por que tanto anelava, ele se negou a recebê-lo, inconscientemente sabendo que o conhecimento de tudo que existe no mundo faria miserável sua existência, como naquele conto de Machado de Assis em que um sujeito escolhe nascer sabendo tudo que havia aprendido na encarnação anterior e, por conta disso, passa a vida toda mergulhado em asco e tédio para com tudo quanto existe. Da mesma forma, pode-se pensar n'"O Aleph" de Borges ou mesmo em "Hamlet".

A culpa, logo, recai na civilização ocidental e na desmistificação do mundo por ela causada. Creio que seja isso, ou o aquecimento global ou a sífilis. De uma forma ou de outra, sugiro que se torne crime imperdoável privar alguém deste estado de embevecimento alcançado unicamente pela ignorância. Da próxima vez, então, que vir alguém se entretendo com algo genuinamente estúpido, apiede-se de si mesmo por ter perdido este saudoso elo com a magia das coisas banais.

 Escrito por Leo às 16h26
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