"Of man and wolf"

Tenho um certo temor de conhecer melhor as pessoas de quem gosto. Esse receio é ainda maior com relação àquelas pelas quais nutro grande estima e admiração ainda que à distância. Sei que é uma coisa meio idiota e facilmente diagnosticável, mas é algo com que tenho de lidar o tempo todo e que tem inúmeros desdobramentos, porque, na verdade, esse medo meio que se aplica a todos os setores da vida, de pessoas a animais, esporte a comida, com exceção da pizza de pepperoni da Santa Margherita. Ela, realmente, nunca me decepciona.

De resto, creio que todos precisamos aprender a lidar com as muitas decepções que enfrentamos. Porém, algumas coisas na vida simplesmente nos pegam de supetão e derrubam todos os alicerces insólitos daquilo que temos como nossas crenças. Por conta disso, é que hoje em dia eu já não espero mais nada de ninguém.

A história do fim de minha fé no gênero humano começou poucos dias atrás. Era uma tarde ensolarada e eu bravamente enfrentava a tormenta enquanto navegava o bravio e instável mar da internet assim como ela nos é porcamente provida. Em meio às muitas manchetes a respeito de coisas desimportantes como política, aquecimento global e o iminente fim do mundo, vi algo que me encheu de esperança e motivação para tornar-me uma pessoa melhor. Não muito longe desse mesmo local de onde escrevo para o mundo essas linhas com mãos ainda trementes, um indivíduo certamente iluminado agia novamente. Sua missão: invadir sua casa e assaltar sua geladeira. Depois disso e de uma eventual soneca, esse incompreendido homem simplesmente parte, deixando para trás tudo aquilo que nós, em nossa ignorância, acreditamos ser de valor.

É desnecessário dizer que fiquei embevecido com a excêntrica aleatoriedade incorporada por esse nosso amigo em suas missões. Pessoas tentaram agarrá-lo, correram em seu percalço e até quiseram impedi-lo de tomar sol na sacada depois de uma boquinha, mas ele tem sempre sucedido em evadir quaisquer medidas contra sua vontade. Em certas ocasiões, foi relatado que ele chegou mesmo a dialogar educadamente com suas vítimas. Não posso deixar de imaginá-lo como uma espécie de núncio numinoso, proferindo frases enigmáticas e agourentas enquanto testa todos os limites de sua astúcia e de seu físico, passando por privações, enfrentando a intempérie e a turba enfurecida de uma forma que daria inveja até a Diógenes. Partindo, deixaria os homens em irremediável aporia e todas as mulheres em idade fértil num raio de dois quilômetros milagrosa e inexplicavemente engravidariam.

Mas, como vocês já sabem antecipadamente por uma falha em minha capacidade narratória, todo o respeito que tinha por esse homem se foi. Ávido por maiores informações a seu respeito, alguns dias depois vim a saber que ele havia quebrado sua própria regra e levado consigo vinte reais depois de seu lanchinho habitual. Não tenho palavras para descrever o triste estado de espírito em que me encontro desde então.

Só me resta a súbita esperança que agora me veio de que isso tudo seja uma tentativa das autoridades de aviltar a extraordinária imagem desse homem santo. Sim, há de ser isso: apenas mais um dolo da corja comunista para acabar com a esperança do povo da emersão de um grande líder e filósofo que poderia nos liderar rumo ao iluminamento espiritual e à conquista do mundo. Do contrário, é preferível a morte.

 Escrito por Leo às 19h21
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Se achar que me viu por aí, pense duas vezes

Para um artista, poucas coisas no mundo são piores do que o anonimato. É comum ver um aspirante a escritor, por exemplo, furioso com o mundo cada vez que um cidadão desprovido de eloqüência ou, em certos caso, até de conhecimentos gramaticais se faz famoso do dia para a noite e ganha montanhas de dinheiro. Outra situação igualmente frustrante é quando um pintor talentoso, porém desconhecido, ganha dos amigos uma revista do tipo "Como aprender a pintar em duas horas". Isso sem falar nos casos em que as pessoas, por ignorância e preconceito, simplesmente menosprezam tudo que um artista faz, usando o raciocínio de que se ele não é famoso, certamente não presta.

Todos esses casos são incontestavelmente tristes. Todavia, o anonimato e todos os exemplos apresentados acima parecem-me pertencer a um único problema maior, com o qual tenho me debatido muito ultimamente: o reconhecimento. Na verdade, o problema é a falha no reconhecimento, como vocês podem imaginar.

O caso é que o destino, esse fanfarrão, quis que habitasse, no prédio ao lado do meu, um sujeito que é a minha cara. Não fosse suficiente a semelhança física e de localidade, quiseram ainda as Parcas que ele estudasse na mesma faculdade, freqüentasse a academia no mesmo horário e se vestisse de forma idêntica a mim.

No início, claro que eu achei graça. Ainda que em todas as ocasiões em que eu e meu clone nos vimos frente-a-frente tenhamos ficado olhando um para o outro com mudo estranhamento, precisei concordar com meus amigos que havia uma certa comicidade na coisa. Era tudo brincadeira enquanto os conhecidos viam me contar que tinham confundido o vizinho comigo. Porém, quando chegou ao ponto de minha própria mãe não ter certeza se era eu ou não, dei-me conta da tragicidade de tudo isso.

Fico pensando o que teria acontecido aos antigos se houvesse falhado para eles também o reconhecimento. Euricléia não teria percebido que era Odisseu o mendigo que chegara ao palácio de Penélope e não o teria ajudado. Os pretendentes teriam-no matado e não haveria a "Odisséia". Ou pior, antes disso, se Agamêmnon não houvesse notado que Odisseu não estava louco de verdade e que a moça forte em meio às outras donzelas era Aquiles disfarçado, na ocasião em que ambos tentaram fugir da guerra, os Aqueus certamente não teriam vencido os Troianos, ou talvez nem tivessem tentado enfrentá-los e não haveria a "Ilíada". Homero, sem ter o que cantar, provavelmente teria aposentado a cítara e virado atendente de telemarketing ou vendedor de enciclopédias.

Por outro lado, talvez eu pudesse tirar proveito dessa confusão de identidades. Preciso tomar coragem e conversar com meu sósia. Se chegarmos a um acordo, poderemos dividir nossas tarefas cotidianas, fazer provas na faculdade e em concursos públicos no lugar do outro, adentrar o mundo do crime, ou mesmo virar mágicos profissionais. Só será preciso tomar cuidado para não esbarrarmos um no outro e causar um rompimento no continuum espaço-tempo. Fora isso e as confusões conjugais, creio que teremos um futuro feliz, eu e meu clone.

 Escrito por Leo às 16h20
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