Senhor de todos os vícios

Você sabe que está viciado em algo quando a necessidade psicológica que sente pelo objeto do vício dá lugar a uma necessidade fisiológica pelo mesmo. Explico: quando a vontade, por exemplo, de ingerir coca-cola é substituída pela certeza de que a não-ingestão irá, inevitavelmente, culminar em um ataque epiléptico ou derrame facial.

Quando você chega nesse estágio do vício, não há muito mais o que fazer. Você passa pelos mais humilhantes expedientes apenas para conseguir apaziguar momentaneamente seu desejo. A lógica, nesse caso, é sua pior amiga, porque as pessoas não-viciadas, por estarem cientes de todos os males e desgraças que os vícios trazem consigo, jamais serão dobradas por qualquer raciocínio que você apresentar para persuadi-las a cooperar com a consumação de seu desejo. Por conta disso, é com freqüência necessário recorrer a chantagens emocionais, acompanhadas, não raro, do despimento completo de todo o auto-respeito que se tem e, por vezes, também das peças de sua presente indumentária. Nesse último caso, convém conferir a priori a tabela de preços convencionais para serviços não-regulamentados, a fim de não sair muito no prejuízo. De outro modo, apresentar a finitude da vida, a insignificância do homem perante o universo e pedir para ser tratado como enfermo costumam ser métodos consideravelmente eficazes.

Há ainda uma situação ainda mais delicada: quando você não só está viciado, como também não tem a menor vontade ou possibilidade de acabar com o vício. Nesse caso, você precisa passar a jogar com as vantagens de seu estado e usar o vício como forma de recompensa para motivar-se a executar seu trabalho e quaisquer outras tarefas que se tenha. É preciso planejar os compromissos diários e também as férias em família tendo em vista esse tipo de necessidade. Quanto maior e mais estranho for seu vício, como por exemplo apenas hidratar-se a partir das lágrimas do papa, maior deve ser o preparo e os planos de contingência. Isso é especialmente verdadeiro nesse caso, porque o atual papa não parece ser um homem de muitas lágrimas.

O lembrete final que gostaria de fazer é o de que todas as pessoas têm algum vício. Portanto, em vez de execrar aquele indivíduo cujas falhas são aparentes ao extremo, tome-o como amigo, pois pelo menos você vai ter certeza do tipo de loucura que ele tem. Muito mais perigoso e nocivo do que ele é o sujeito diligente e que se diz senhor de todos os vícios, assim como Sócrates. Tome cuidado com esse cidadão e evite-o a todo custo, pois muito possivelmente ele passa seu tempo livre sentado em algum parque da cidade, seduzindo criancinhas indefesas, assim como Sócrates.

 Escrito por Leo às 19h13
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